Decidi voltar para a casa de mamãe, que me ajudou na recuperação. Estava muito fraca e não tinha ânimo para nada.Durante muitos dias, fui tratada com soro caseiro e comida especial, com colo de mamãe, que é doce feito mel e socorreu-me naquele momento de amargura.
Eu sempre repetia que a vida não tinha mais sentido e não via prazer em viver, pois a vida sem amor não vale a pena .Um dia depois do almoço, mamãe caprichou na comida e eu, pela primeira vez depois de muito tempo, alimentei-me muito bem e foi nesta hora que mamãe, que sempre foi contra esse romance dizia que casamento era só uma vez na vida, que ninguém tem o direito de realizar mais de uma união e desfiou o seu rosário de verdades.
Aquelas que ninguém merece ouvir, entre outras coisas dizia que eu nunca mais fosse procurar príncipe encantado nas esquinas, ainda mais embriagado, caído em calçadas. Disse poucas e boas. Naquele momento poderia morrer de ira ou tristeza, enquanto ouvia as tais verdades, resolvi responder:.
:A senhora pode estar 100% certa, mas pode estar errada também: a vida mudou! Não sei o que ela entendeu, mas retrucou-me:
Mudou , mudou sim pra pior.Escuta aqui sua pirralha, você tem cinco minutos para tomar jeito de mãe de família e dona-de-casa e vá cuidar de suas obrigações”, intimou-me ela, enquanto segurava fortemente minha orelha e, com os dedos cravados nelas, empurrou-me e ordenou: - Vá agora!
Livrei-me de suas unhas com a orelha pegando fogo, abri o chuveiro e fiquei ali, com a água caindo sobre mim e levando junto ralo abaixo minhas lagrimas. Eu tentava engolir o choro de todas as maneiras e raciocinar até que ponto eu ou a mamãe estávamos certa. Neste momento, saiu um soluço vindo da alma,e mamãe bateu na porta e disse: - Vai pagar a conta de água e de luz este mês? Entendi o recado e respondi afirmativamente.
Pude agüentar todas aquelas verdades e ainda por cima se chamada de pirralha, o que me fez lembrar que quando criança eu, era a mais miúda também, por isso se referia a mim desta maneira. .
Fui à casa onde passamos dias felizes deitados na rede ou na cama, coloquei fogo em tudo e deixei arder e arder. Uma laranjeira, à sombra qual fizemos amor, mandei arrancá-la e instalar um tanque para criação de peixe no lugar.
Mesmo sendo minha mãe, muito mais experiente e com um metro e setenta e cinco de altura, e eu apenas com um e cinqüenta e nove, ainda sim eu não lhe dava o direito de puxar minhas orelhas e me tratar deste jeito.
Peguei a chave do carro da família, que ficava ali atrás da porta, e sai em direção a meu sitio. Chamei o caseiro e lhe dei ordens para que entrasse com o trator naquela plantação de hortaliças e cuidar da terra para fazer um plantio de limão thaity.
Quando o empregado perguntou por que a plantação de limão, respondi curta e grossa: - Para ver se aqui sai um limão mais azedo do que eu! Ele cumpriu as ordens sem mais perguntas.
No fundo, sempre acreditei que meu amor iria voltar; não sei como, mas de alguma maneira. Comprei passagem de volta para São Paulo e segui viagem, agora de metrô. Chegando à estação da Sé, a plataforma estava lotada, por se tratar de horário de pico, às seis horas da manhâ, mas nunca me senti tão só no meio de tanta gente. Com uma mochila nas costas, andava pela plataforma procurando um lugar mais vazio para eu ficar e, de esbarrão e em esbarrão, fui caminhando de cabeça baixa e devagar.
De repente senti o cheiro dele e, como flutuando para o céu, levantei a cabeça e procurei por todos os lados; gritei seu nome, mas ninguém olhou e eu não vi nada. Mesmo assim, fui tomada por uma onda de felicidade, meu coração sentiu sua presença naquele lugar; sei que estava ali de alguma forma, pois pude sentir seu cheiro de suor misturado a seu perfume. Abaixei novamente a cabeça e continuei a caminhar, com a impressão de que ele estava a meu lado, apesar de não entender exatamente o que estava acontecendo. Talvez ele estivesse a me olhar de algum lugar; essa foi a sensação que tive.
Quando cheguei em casa, me senti-me como se tivesse perdido uma parte de um filme, como se tivesse esquecido alguma coisa em algum lugar; faltava algo em minha casa. Deitei em minha cama tentando recapitular a história e me dei conta do ruidoso silêncio.
Os trotes passaram. Por que a dona daquela voz sinistra estava tão feliz quando deu a noticia da morte do meu amor? Será que preferia vê-lo morto a ficar comigo? Ou será que ela levou a melhor e ficou com ele?
Será que em algum lugar do mundo eles estão juntos? Ele pode estar com ela, afinal não vi seu corpo. Desfalecido. Se ele estiver com ela porque devo sofrer tanto assim?
Quanta pergunta sem resposta. Agora estou só, pois todos foram cuidar de suas vidas e, apenas o cinzeiro cheio é testemunha da solidão.Penso que no escuro do meu quarto ele vem me proteger. Imagino porque Deus me deu tamanha cruz para carregar. Durante muito tempo, a dúvida corroeu-me a alma, até que finalmente tomei coragem de ir ao cemitério, onde nem precisei conferir seu nome, uma vez que deparei com sua foto em seu túmulo, onde lhe deixei uma flor. Um momento muito triste em que senti o tamanho de minha solidão, mas, ao mesmo tempo percebi que, apesar da saudade, a vida continua. Numa tristeza resignada, voltei para casa à pé para refletir sobre como teria que levar a vida adiante sozinha.
DOIS ANOS DEPOIS...
Toca o telefone. É o empregado do sitio, para negociar os limões e comunicar que a plantação foi um sucesso, a ponto até de nossa propriedade ganhar o apelido de sitio do Thaity. Para minha surpresa, a repercussão da safra foi tanta, que ao chegar em Minas, também fui tratada pelo mesmo apelido.
Lembrei-me de uma crença que ouvi em meus tempos de menina, que quando olhássemos o céu e uma estrela mudarem de lugar, era só fazer um pedido que este seria realizado.
Neste caso, o que pediria? Encontrar um novo amor? Não, de jeito nenhum!
Então, resolvi pedir um motivo para viver, passei meu batom, fiquei olhando para o céu até à meia noite. As estrelas se mantiveram no lugar, nenhuma se moveu, nem o meu pescoço e que consegui foi um “belo torcicolo”.
Mas insisti. Na noite seguinte decidi tentar de novo; coloquei um tapete no quintal, umas almofadas bem aconchegantes, passei meu batom vermelho. Agora sim, dava para ficar a noite toda esperando a estrela mudar de lugar. Quando foi mais tarde a lua, que fora minha testemunha de casamento ao lado das estrelas, apareceu com seu cavalo de São Jorge. Aproveitei e pedi:
- Madrinha lua! Mande-me um sinal de vida! Mas, parecendo ignorar meu pedido, ela apenas iluminava-me. Continuei olhando fixamente e pedindo para que me mandasse uma luz para me guiar.
Percebi que as nuvens dançavam em volta dela. Uma formava uma saia, outra hora uma perna de calça, ou um chapéu bem grande. Todas passavam pela lua dançando, como se fossem bailarinas. Resolvi tocar uma musica para o céu e de repente estava eu dançando também para a lua, com os braços erguidos deixando um espaço vazio entre os braços e meu corpo, como que abraçando meu amor. Dancei muito tempo, horas seguidas. Caiu uma chuva fina ou um sereno grosso, que enfeitou meus cabelos com gotículas prateadas que brilhavam refletindo a cor da lua. Senti-me tão linda como ela, minha madrinha, e decidi voltar a dançar.
Descobri que perdi o medo da chuva, que tudo que vem do céu é mandado por Deus. Nos fins de semana, faça chuva ou sol vou atrás do barulho, porque foi na dança que encontrei a vida...
Conheci uma professora de dança do ventre e a idéia atraiu-me. Imaginei-me dançando uma dança sensual em cima de um grande palco. Hoje, sou dançarina da dança do ventre, que, segundo a tradição, se dança para alguém muito especial. Nos finais de semana, misturo forró com dança do ventre, e deixo o suor escorrer pelo meu corpo, que assim fica mais leve.
Nas sextas, no salão de Ribeirão Pires FC, sábados na Estância e aos domingos na Polése, que agora é comandada pelo Hélio dos Teclados e sua equipe, também sigo meu o ritual que tanto tanto me dá prazer e que aprendi com meu amor.
Eu danço e sei que meu par um dia vai chegar. Sei também que danço diferente das outras pessoas, mas foi o jeito que a vida me ensinou e impôs a dançar... Também descobri que, quanto mais eu estudo, mais analfabeta eu sou, porque a arma mais poderosa contra qualquer tipo de injustiça é a caneta que agora tenho em mãos e tem o poder de me levar para qualquer lugar que a imaginação possa atingir. É o meio mais rápido de se viajar, mesmo que seja sozinha, como uma andorinha tentando fazer verão... Mas, na certeza de que atrás de mim outras andorinhas virão...
O que importa é que nesta grande viagem chamada vida, em minha mochila não carrego mágoa e nem saudade, apenas levo e sugiro a dança para os amigos que possam, de um jeito ou de outro, estar só. A partir da parceria que fiz entre a vida e a dança, encontrei a felicidade, estando ciente de que há varias de ser feliz e que todos podem encontrar o seu caminho...
Meu parceiro é o vento e, na corrente mais forte de ar, chego a flutuar, porque felicidade não tem peso e a liberdade não tem preço, mas é algo a se conquistar.
Se você que agora lê meus escritos de alguma forma se encontrar em minha historia, será mera coincidência. Mas é possível que se identifique com alguns aspectos dela. Afinal, todos os seres humanos, como, particularmente no caso das mulheres, como eu, a busca pela liberdade é um grande desafio, que implica em ter força e coragem, mas que certamente garante muita história para contar. Histórias construídas com dores, sonhos, alegrias e amores e cujo roteiro não tem receita pronta, mas depende de cada um.
Assim, ao contar fatos marcantes de minha vida, não tenho pretensão de sugerir modelos, apenas mostrar que é sempre possível renascer das cinzas e dar a volta por cima, basta não desistir de viver e de sonhar. E se possível encorajar outras pessoas que também contem suas histórias e como enfrentam a grande aventura que chamamos vida. Se tiver dúvida, comece pelo meio, principio ou fim. MARIA MEIRELES
Sorteio Ingressos Mercado Persa 2019
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NOOOOSSSAAAAAAA... e o tempo voa mesmo !!!
E já estamos com um nome sorteio para o Mercado Persa !!!!
Graças a Deus... (*lol*)
O Mercado Persa dispensa apre...
Há 7 anos

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