segunda-feira, 3 de maio de 2010

A chegada a São Paulo

Logo após a cerimônia religiosa, pegamos as malas e seguimos viagem até a cidade para embarcar para São Paulo.

Entramos no ônibus, tão confortável e macio que me senti em minha cama. Com o cansaço do dia agitado, dormi a viagem toda.

Logo pela manhã, chegamos à rodoviária D. Pedro II. Meu marido me chamou, tocou com as mãos sem meu rosto, até que eu acordei, dei uma espreguiçada gostosa, arrumei meus cabelos e perguntei:

- Porque me chamou?

Ele disse:

- Chegamos a São Paulo.

- É mesmo? – Eu perguntei.

Olhei pelo vidro do ônibus, avistei uma multidão correndo de um lado para o outro, pareciam formigas com as folhas nas cabeças, todos com malas, sacolas, puxando crianças pelas mãos.

Levei um grande susto e perguntei:

- Porque eles estão correndo deste jeito?

- Isto é normal. Cidade grande é assim mesmo.

Assustei-me, encolhi-me no canto do ônibus e pensei: Acho que aqui em São Paulo está acontecendo alguma coisa.

- Anda, vamos – Disse ele.

- Não, eles estão correndo com coisas nas mãos, parecem que estão fugindo de São Paulo, vamos voltar para trás – Eu respondi.

- Não tem ninguém correndo aqui, todos andam assim mesmo. Vem, vamos pra casa.

Então, me levantei devagar olhando para os lados, desci do ônibus e segurei na camisa dele com medo que as pessoas me atropelassem.

Ele ia caminhando na frente e eu atrás, imaginei ser um dia santo e que talvez por ali perto estivesse acontecendo uma grande festa.

Mas, percebi que as pessoas andavam em direção contrária; elas seguiam em todas as direções. Fiquei andando agarrada nele, e olhando as pessoas, tinha gente bem vestida, outros pareciam estar de uniforme, com blusas e calças iguais. Era realmente muito curioso, diferente de onde nasci e cresci.

Meu marido foi em direção a outro ônibus e eu perguntei:

- Pra onde vamos? Você me disse que havíamos chegado.

- Chegamos a São Paulo, mas para chegarmos em casa falta muito.

Entramos no ônibus em direção a São Bernardo do Campo.

Não entendia porque havíamos chegado em São Paulo e agora estávamos indo para outro lugar. Ele me explicou que tudo ali faz parte de São Paulo.

Quanto mais o ônibus andava, mais assustada eu ficava com o tamanho da cidade.

Imaginei que nunca mais iria encontrar o caminho de volta para a casa de meus pais, cada rua era tão parecida com a outra que pensei que estávamos andando em círculos. Todos os rostos eram diferentes, não havia um parecido com algum que eu conhecesse.

Cerca de duas horas depois, ele deu o sinal para o motorista e finalmente descemos daquele ônibus, que já não tinha o mesmo conforto do outro. Ao contrário das outras almofadadas, agora eram de plástico duro e vermelho.

Caminhamos um pouquinho, ele pegou as chaves no bolso e abriu a porta de um barraco de tábua e disse:

- Este é o nosso barraco.

Eram dois cômodos, apenas quarto e cozinha. No quarto havia uma cama de casal, uma penteadeira pequena e um guarda-roupa.

Na cozinha o fogão, um armário e uma pequena mesa com quatro cadeiras, tudo bem vermelho.

Ele disse:

- Eis a sua casa!

Não sei por que não aceitei bem a idéia e questionei:

- Porque as paredes são de tábua? Nunca vi isto lá em Minas.

Ele respondeu:

- Aqui em São Paulo, só rico tem casa de cimento, o resto da população é barracos de tábua.

E acrescentou:

-Agora vou tomar um banho para descansar, vem também.

- Claro, vou pegar a toalha e as roupas. – Disse eu.

As dele já estavam em cima de seu braço. Parado na minha frente, ele ficou me aguardando por uns minutos, até que eu dissesse para ir andando.

- Vou te mostrar o banheiro e lhe explicar tudo como funcionam as coisas aqui. – disse ele.

Foi me explicando que três famílias usavam o banheiro, ali do lado de fora tínhamos que aguardar caso tivesse alguém no banho. Foi logo tirando as roupas, só que eu nunca tinha visto um homem adulto sem roupas; quis correr, quando me segurou forte pelo braço.

- Calma mulher! É minha esposa agora e maridos e mulheres tomam banhos juntos e nus.

Parei, olhei para o rosto dele, parecia brilhando. Falava com um ar de sorriso nos lábios.

- Está doendo meu braço! – reclamei.

Imediatamente soltou e pediu desculpa, disse que não tinha a intenção de me machucar. Em um leve descuido dele, me escapei, abri a porta e corri.

- Vou ficar aguardando você sair aqui do lado de fora – disse eu.

Parece que ele percebeu que não seria tão fácil como planejou. Teve que mudar de tática rapidinho e recomeçar com mais calma. Depois do banho e do café da manhã, me chamou para deitar ali do lado dele. Só tinha uma cama, fui devagar, andando, ele pegou um livro na mão, e como se estivesse lendo, disse:

- Pode descansar, fique à vontade.

Depois que eu estava do lado dele, foi folheando o livro e conversando comigo. Senti-me bem à vontade, ele conversou bastante e explicou tudo o que eu já deveria saber, ou que talvez mamãe deveria ter falado sobre menstruação. Que era um pequeno sangramento pela vagina, e que só depois que isso acontecesse eu estaria pronta para ser mãe de nossos filhos, foi falando, falando, até que adormeci. Quando acordei, ele fazia carícias em meu corpo, fui aceitando até que aconteceu a nossa primeira relação sexual.

No dia seguinte, meu marido saiu cedo para o trabalho, recomendou-me que não saísse de dentro de casa para nada, se alguém batesse na porta, que eu não atendesse, pois ali era muito perigoso.

Fiquei o tempo todo trancada dentro do quarto, ali não tinha muito o que fazer, passava a maior parte do tempo deitada, ou sentada na cozinha.

Não demorou nem um mês e eu menstruei pela primeira vez. Logo engravidei do primeiro filho.

Trancada em casa, olhava o tempo todo pelo buraquinho do barraco, ali entre uma tábua e outra. Eu via uma feira livre perto, na mesma rua via as donas-de-casa indo e vindo com sacolas nas mãu via uma feira livre perto, na mesma rua via as donas de casa indo e vindo com sacolas nas mos, cheias de frutas e legumes; uma dessas senhoras trazia em suas mãos, uma metade de uma melancia, muito vermelha, fiquei com muita vontade de comer, mas não tinha ordem para sair de dentro do barraco.

Mas a vontade foi maior. Procurei pela casa umas moedas, juntei uns trocados, tomei coragem e saí na rua, mas não sabia mais como caminhar. Fiquei com muita vergonha. Parecia que todas as pessoas tinham os olhares em minha direção, então voltei correndo para dentro do meu quarto, e tranquei novamente, com medo com meu marido descobrisse que eu tinha saído.

Quando ele chegou do trabalho, eu perguntei se eu podia sair para ir à feira, sem contar que tinha saído.

- Não! – A resposta foi seca e firme e acrescentou que iria me perder pelas ruas, e acabar dando trabalho para ele. Ele me perguntou:

- O que você quer na rua?

Eu disse:

- Pela fresta da janela, vi uma mulher com uma melancia nas mãos, tive vontade de comer, parecia muito boa. Era o primeiro desejo típico de gravidez.

Ele saiu e logo voltou com uma sacola cheia de frutas, fiquei muito contente, e entendi o recado: De dentro de casa não podia sair. Mas, a melancia que ele trouxe não era tão boa quanto a da feira.

Uma vez por mês, meu marido me levava ao médico para fazer o pré-natal.

O tempo foi passando até que nasceu o primeiro filho, uma experiência mágica ser mãe pela primeira vez ainda com quinze anos de idade.

Não tinha experiência, ajuda e nenhuma noção de como cuidar de um bebê. Esquecia de dar banhos, mamadeira, e trocar a fralda, até que eu me lembrasse o ele queria, o bebê já havia chorado muito, e eu chorava junto com ele.

Assim, passávamos a maior parte do tempo chorando.

O tempo foi passando, e descobri que estava grávida de novo, pela segunda vez; ainda não tinha aprendido como cuidar do primeiro filho e já esperava outro. Nem dez meses depois, nasceu o a minha primeira filha e fiquei com dois bebês chorando junto comigo. Tempos depois, vieram outro menino e outra menina.

Então fiz uma laqueadura e fiquei com quatro lindos bebês que me ensinaram como caminhar de novo.

Eles corriam pra fora e eu corria atrás deles. Assim, nós fomos vivendo, já não me sentia tão prisioneira, corria o tempo todo com as crianças, com apenas vinte anos, era mãe de quatro filhos.

Todos os dias, levava-os para tomar sol pela manhã, eles eram minha vida.

Meu marido era bruto, seco, de pouca conversa, mas nunca deixou faltar nada em casa. Ele mesmo ia até o mercado, enquanto eu e as crianças ficávamos em casa esperando a compra chegar.

Agora que eles estão crescidos, pedi para o meu marido para abrir este barzinho. É um modo de me comunicar com as pessoas e ganhar uns trocados para ajudar nas despesas da casa. Um amigo meu me perguntou:

- Você é feliz?

Eu respondi:

- Muito feliz! Meus filhos com sorriso no rosto são a minha vida.

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