segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Infância e adolescência

Nasci em uma tapera de sapê, nestas casas de pau a pique, feitas de barro, toda amarrada de cipó. Ficava à beira da estrada, perto de um rio, num lugar chamado Vargem Alegre, no município de Dores do Turvo.

Esta tapera ficava praticamente escondida no meio do mato alto. Quem passava por ali jamais imaginaria que no meio do nada vivia uma família e muito feliz, por sinal. Papai e mamãe pareciam entender-se muito bem, nunca nenhum dos filhos havia presenciado sequer uma palavra de ofensa de um para o outro.

Em uma noite de chuva forte, no dia 8 de novembro de 1961, quando nasci prematura de sete meses. Mamãe conta que naquela noite, ela dizia para papai que não estava bem, mas ele não lhe deu muita atenção, pois ainda faltavam dois meses para completar a gestação. Ele pensou que o mal-estar vinha de alguma coisa que ela havia comido e não lhe feito bem.

Papai era calmo, muito sossegado e não se preocupou com as queixas de mamãe. Com os trovões fortes e relâmpagos que clareavam a casa, reforçando a luz da única lamparina de querosene acesa, minha mãe entrou em trabalho de parto. Papai percebendo finalmente a gravidade da situação, desesperou-se e saiu na chuva para buscar ajuda.

A noite estava muito escura, com o mato alto, papai se perdeu e esperava o relâmpago para clarear seu caminho, o que acabou atrasando sua chegada à casa da parteira. Chegando lá, gritou desesperado o nome de Dona Julieta, uma senhora sábia, que era quase uma médica para aquele povo humilde, e sem condições para ir até a cidade mais próxima para procurar serviços médicos. Então, ela aprendeu a curar as pessoas com chás caseiros e remédios feitos de raízes, além de orações e tradicionais simpatias.

Costumava dizer com orgulho que pegou no colo todas as crianças que nasceram naquelas redondezas.

Ao ser procurada por meu, ela foi o mais rápido que pôde para cuidar de mamãe, enfrentando as más condições do caminho e levando muito tempo para desviar das enchentes que subiam rapidamente às encostas.

Quando chegaram à nossa casa, lá estávamos nós... Eu havia nascido com mamãe sozinha e sem esboçar reação, permanecendo estática até a chegada da parteira, que imediatamente prestou socorro à parturiente e dedicou os cuidados à recém-nascida, agasalhando-a após o primeiro banho.

Mamãe contava que eu era tão pequena que mesmo eu sendo já o oitavo filho, tinha medo de me pegar, pois corria o risco de escorregar entre os panos e cair no chão. Dizia que eu pesava cerca de 1 kg no máximo.

Por isto, mamãe me deu muita atenção. Amamentava a cada meia hora, vivia comigo nos braços pra cima e pra baixo, que era pra me manter aquecida. Teve medo de me perder, achou quase impossível uma criança tão pequena sobreviver com as condições precárias em que vivíamos.

O tempo foi passando, eu fui crescendo, com a saúde frágil e muito “miudinha”. Tratada com chás caseiros, costuma dizer que estou aqui quase por um milagre de Deus.

Éramos em dezoito irmãos, mas apenas dez sobreviveram.

Minha mãe nunca fez um pré-natal ou mesmo uma visita ao médico.

Nós não tínhamos nada, nem mesmo uma simples sandália nos pés, ou uma blusa de frio.

Papai acendia uma lata de fogo no meio do quarto todas as noites de inverno para nos aquecer e nós dormíamos todos juntinhos em uma esteira de taboa no chão. (Taboa é uma planta nativa da região.) Papai e mamãe trançavam esta planta e construíam um colchão para nós.

Minha mãe era linda e loira, descendente de italianos, e papai bem moreno, descendente de índios. Apaixonaram-se loucamente, porém meus avós tentaram impedir o casamento de todas as formas possíveis, mas foi em vão.

Papai, considerado um negro e violeiro, era chamado de vagabundo. Meus avós não o aceitaram como genro e excluíram minha mãe da família. Os dois jovens, sem apoio de familiares dos dois lados, isolaram-se e foram lutar juntos.

Papai acabou abrindo um comercio próximo à cidade. Era como um mercadinho que vendia e comprava aves e outros animais. Assim foi criando os dez filhos.

Eu vivia correndo pelos pastos subindo em arvores, nadando em rios, e cachoeiras das redondezas. Papai nunca se preocupou em nos dar uma educação, pois não achava necessário, principalmente no caso das mulheres.

Ele sempre dizia que bastava às sete filhas aprenderem os serviços de casa, como lavar, cozinhar, passar, etc. A contragosto de papai, mamãe permitiu que uma prima nos ensinasse a ler e escrever, e isto é o pouco que sei até hoje. Mas, um dia ainda quero voltar a estudar.

Quando tinha 14 anos de idade, já quase completando os 15, apareceu um moço lá em casa, que havia chegado de São Paulo, passando férias. Era filho do dono da fazenda vizinha. Tinha uma conversa boa, era bonito, bem trajado e até possuía relógio no pulso. Todo falante, com dinheiro no bolso, que fazia questão de exibir, comprando a bebida mais cara da venda.

Percebi que conversava muito com papai, meio aos cochichos pelos cantos do comércio. Também percebi que o papo era interessante e fiquei curiosa para saber ao menos do que se tratava. Até tentei aproximar sem ser percebida, mas eles pararam de falar, e a educação que recebi, não permitia que ouvisse conversas alheias. Então saí, deixando que eles continuassem a conversa.

Não imaginava que o assunto que estava sendo discutido era eu! Tratava-se do meu casamento com aquele moço desconhecido. Para minha surpresa, no fim de tarde, depois que papai fechou o comercio, me chamou e anunciou meu noivado. Levei tamanho susto!

Tentei argumentar:

̶̶ ̶ Mas papai...

̶ ̶ Mas papai o que? – Interrompeu-me ele com a voz grossa e rude. Eu nunca o tinha ouvido falar assim comigo... Fiquei assustada e tive medo quando ele perguntou:

̶ ̶ Vai desrespeitar seu pai?

̶ ̶ Não. Desculpe papai, não é isto, só queria dizer que não conheço este moço.

Papai continuou:

̶ ̶ Não tem mais, nem menos, você se casa no fim do ano e pronto.

̶ ̶ Mas... Eu só tenho 14 anos... – argumentei

̶ ̶ Isto é assunto meu, eu resolvo! Eu resolvo do meu jeito!

̶ ̶ Você só tem que providenciar o enxoval do casamento junto à sua mãe.

Fiquei sem palavras, não sabia o que dizer, apenas fiquei ali diante dele por uns momentos, tentando encontrar uma palavra que definisse meus pensamentos.

Eu olhei para mamãe como um pedido de socorro, mas mamãe baixou os olhos. Até o presente momento, ninguém havia desrespeitado uma ordem de papai. E a ordem era curta e grossa.

Eu não sabia por onde começar; fiquei completamente perdida, chorei até dormir.

Na madrugada perdi o sono e escutei quando mamãe e papai discutiam baixinho no quarto ao lado. Não deu para entender a discussão, pois sempre eram muito discretos em assuntos pessoais.

Eu tentava encontrar uma saída para fugir daquele casamento arranjado por meu pai. A única coisa que me passou pela cabeça foi falar com uma professora que dava aula na fazenda de café, onde o fazendeiro abriu uma escola, para os filhos dos empregados estudarem.

Esta professora passava a cavalo ou a pé todos os dias perto da minha casa. Às vezes até parava para beber água na bica. Ela era meiga, calma, e muito carinhosa com todas as crianças. Então pensei: quem sabe poderia me ajudar.

No dia seguinte, a esperei bem distante da minha casa. Longe de papai e de todos. Ela se chamava D. Nilza. Então gritei:

̶ ̶ D. Nilza, por favor espere, preciso lhe falar.

Ela parou, apeou do cavalo que estava montada e com toda atenção me perguntou:

̶ ̶ O que você quer minha linda?

̶ ̶ É apenas uma pergunta. Vou ser rápida, nem precisava descer do cavalo – Eu respondi.

̶ ̶ Já estou cansada do lombo deste animal, vou aproveitar para caminhar um pouco. Mas o que você quer saber?

̶ ̶ Só queria perguntar se alguém pode se casar com 14 anos.

Ela sorriu, olhou pro meu tamanho e disse:

̶ ̶ Já está pensando em se casar? É cedo ainda, não acha?

̶ ̶ Não, é só curiosidade.

Ela respondeu:

̶ ̶ Não, antigamente sim, mais hoje, é só depois dos 16 anos e com a autorização dos pais.

Quando ouvi estas palavras, fiquei tão feliz que nem me despedi da professora. Voltei correndo para meus afazeres domésticos e pensando “Que bom, ainda tenho um ano para escapar deste casamento!”.

Então, dei graças a Deus e voltei a cantarolar e fazer palhaçadas para os meus irmãos. Eles sempre diziam: “Esta minha irmã é uma atrapalhada, o trabalho dela não sai, mas palhaçada... é o dia todo!”.

Quando entrei em casa, dei falta do papai e perguntei à mamãe:

̶ ̶ Cadê papai?

̶ ̶ Foi na cidade – Respondeu-me ela

̶̶̶ ̶ Fazer o quê?

Mamãe respondeu:

̶ ̶ Ele disse que iria resolver uns assuntos lá... Coisa dele.

Não dei importância ao fato, porque papai sempre ia à cidade para buscar mercadorias para o comercio, pensei que fora uma viagem de rotina.

Quando papai chegava da cidade sempre trazia alguma novidade para nós, e todos aguardavam ansiosos o seu retorno.

Quando ele chegou, explicou para os demais filhos que foi uma viagem às pressas e por isto não havia tido tempo de comprar nada para nós e que na próxima semana voltaria e compraria muitas coisas. Eu fiquei ali por perto e pude ver quando ele tirou um papel do bolso, que para minha surpresa era meu registro de nascimento.

Eu ainda não havia sido registrada, por isto me registrou como sendo um ano mais velha. Ao invés de 1961 no registro constava 1960.

Ele acrescentou:

̶ ̶ Daqui há dois meses você se casa.

Naquele momento acabaram-se todas as minhas esperanças. Estou perdida -, pensei. O jeito foi me conformar e aceitei me casar, pois papai não me deu segunda opção.

Daí por diante, todas as conversas que tive com mamãe foram sobre como deveria se comportar uma esposa.

Mamãe me dizia que eu deveria respeitar o meu marido em toda e qualquer situação. Jamais poderia responder-lhe ou sair de casa sem sua permissão. Quando ele chegasse em casa, todo o serviço deveria estar pronto: comida na mesa; roupas limpas e bem passadas; casa limpa; toalhas no banheiro; chinelos perto de onde ele fosse se sentar, etc.

Tinha de ser carinhosa e calma quando falasse com ele. Toda e qualquer pergunta que eu fizesse, seria sempre revertida em favor dele.

Aí eu perguntei:

̶ ̶ E se por caso eu ficasse doente e não desse conta do serviço?

E ela respondeu:

̶ ̶ Mulheres não podem adoecer, enquanto se agüentarem de pé devem estar trabalhando.

̶̶ ̶ Pois sim mamãe – acatei.

Os dias passaram rápidos e a data estava marcada para o dia 13 de novembro 1976.

O moço chegou para noivar comigo. Peguei na mão dele para cumprimentar. Ele tentou me dar um beijo no rosto, mas eu escapei deixando ele um pouco sem graça diante de papai e mamãe. Neste momento eles foram à cozinha preparar o café pro moço.

Aproveitei o momento e perguntei:

̶ ̶ Por que quer se casar assim tão depressa?

Ele respondeu:

̶ ̶ Tenho pouco tempo aqui. Apenas 30 dias de férias e meu pai diz que todo homem tem que ter uma família, e nós dois vamos formar uma.

̶ ̶ Preciso de mais um tempo, gostaria de organizar uma festinha – Argumentei.

̶ ̶ Isto não é importante. Festa não vai nos levar a nada. Hoje em dia, isto não se usa mais. Aproveitemos este dinheiro que gastaríamos na festa, para gastá-lo na viagem para São Paulo.

̶ ̶ Vou te levar para lá e você vai ser muito feliz!

̶ ̶ O que tem lá? – Perguntei.

̶ ̶ Lá é uma cidade linda! As ruas são cheias de gente andando, fazendo compras, muitos e muitos carros circulando o dia todo. As ruas são iluminadas, é realmente uma beleza de cidade, tenho certeza que você vai adorar lá.

Confesso que fiquei muito curiosa.

Imaginei um monte de lamparinas de querosene acesas no chão iluminando as ruas; os animais caminhando do lado das lamparinas... Devia ser realmente muito bonito! Até fiquei ansiosa para ver como era São Paulo.

Mas trazia na mente, eu imaginava as cidades a partir das coisas do sertão. A curiosidade cresceu, e nem me passava pela cabeça o que era uma cidade grande como São Paulo.

Assim, enchendo minha cabeça de ilusões, e acreditando que o casamento seria um eterno mar de rosas, é que chegou o tão esperado dia.

O casamento foi realizado na igreja matriz da cidade de Dores do Turvo. A celebração foi feita pelo padre Nelson.

Uma chuva forte caiu e molhou-me toda, pois o carro que me levou até a igreja era um jipe sem capota, mas não dei importância ao fato, já que eu era acostumada a brincar na chuva. Para mim, não passou de um vestido branco molhado. Aquelas chuvas fortes e passageiras eram a coisa mais natural naquele clima quente.

No caminho de volta para casa, a chuva nos pegou e eu brincava como uma criança inocente com as gotas que vinham em direção ao meu rosto. Não podia imaginar o que me aguardava.

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