terça-feira, 24 de maio de 2011

A Volta à Origem

Decidi voltar para a casa de mamãe, que me ajudou na recuperação. Estava muito fraca e não tinha ânimo para nada.Durante muitos dias, fui tratada com soro caseiro e comida especial, com colo de mamãe, que é doce feito mel e socorreu-me naquele momento de amargura.
Eu sempre repetia que a vida não tinha mais sentido e não via prazer em viver, pois a vida sem amor não vale a pena .Um dia depois do almoço, mamãe caprichou na comida e eu, pela primeira vez depois de muito tempo, alimentei-me muito bem e foi nesta hora que mamãe, que sempre foi contra esse romance dizia que casamento era só uma vez na vida, que ninguém tem o direito de realizar mais de uma união e desfiou o seu rosário de verdades.
Aquelas que ninguém merece ouvir, entre outras coisas dizia que eu nunca mais fosse procurar príncipe encantado nas esquinas, ainda mais embriagado, caído em calçadas. Disse poucas e boas. Naquele momento poderia morrer de ira ou tristeza, enquanto ouvia as tais verdades, resolvi responder:.
:A senhora pode estar 100% certa, mas pode estar errada também: a vida mudou! Não sei o que ela entendeu, mas retrucou-me:
Mudou , mudou sim pra pior.Escuta aqui sua pirralha, você tem cinco minutos para tomar jeito de mãe de família e dona-de-casa e vá cuidar de suas obrigações”, intimou-me ela, enquanto segurava fortemente minha orelha e, com os dedos cravados nelas, empurrou-me e ordenou: - Vá agora!
Livrei-me de suas unhas com a orelha pegando fogo, abri o chuveiro e fiquei ali, com a água caindo sobre mim e levando junto ralo abaixo minhas lagrimas. Eu tentava engolir o choro de todas as maneiras e raciocinar até que ponto eu ou a mamãe estávamos certa. Neste momento, saiu um soluço vindo da alma,e mamãe bateu na porta e disse: - Vai pagar a conta de água e de luz este mês? Entendi o recado e respondi afirmativamente.
Pude agüentar todas aquelas verdades e ainda por cima se chamada de pirralha, o que me fez lembrar que quando criança eu, era a mais miúda também, por isso se referia a mim desta maneira. .
Fui à casa onde passamos dias felizes deitados na rede ou na cama, coloquei fogo em tudo e deixei arder e arder. Uma laranjeira, à sombra qual fizemos amor, mandei arrancá-la e instalar um tanque para criação de peixe no lugar.
Mesmo sendo minha mãe, muito mais experiente e com um metro e setenta e cinco de altura, e eu apenas com um e cinqüenta e nove, ainda sim eu não lhe dava o direito de puxar minhas orelhas e me tratar deste jeito.
Peguei a chave do carro da família, que ficava ali atrás da porta, e sai em direção a meu sitio. Chamei o caseiro e lhe dei ordens para que entrasse com o trator naquela plantação de hortaliças e cuidar da terra para fazer um plantio de limão thaity.


Quando o empregado perguntou por que a plantação de limão, respondi curta e grossa: - Para ver se aqui sai um limão mais azedo do que eu! Ele cumpriu as ordens sem mais perguntas.
No fundo, sempre acreditei que meu amor iria voltar; não sei como, mas de alguma maneira. Comprei passagem de volta para São Paulo e segui viagem, agora de metrô. Chegando à estação da Sé, a plataforma estava lotada, por se tratar de horário de pico, às seis horas da manhâ, mas nunca me senti tão só no meio de tanta gente. Com uma mochila nas costas, andava pela plataforma procurando um lugar mais vazio para eu ficar e, de esbarrão e em esbarrão, fui caminhando de cabeça baixa e devagar.
De repente senti o cheiro dele e, como flutuando para o céu, levantei a cabeça e procurei por todos os lados; gritei seu nome, mas ninguém olhou e eu não vi nada. Mesmo assim, fui tomada por uma onda de felicidade, meu coração sentiu sua presença naquele lugar; sei que estava ali de alguma forma, pois pude sentir seu cheiro de suor misturado a seu perfume. Abaixei novamente a cabeça e continuei a caminhar, com a impressão de que ele estava a meu lado, apesar de não entender exatamente o que estava acontecendo. Talvez ele estivesse a me olhar de algum lugar; essa foi a sensação que tive.
Quando cheguei em casa, me senti-me como se tivesse perdido uma parte de um filme, como se tivesse esquecido alguma coisa em algum lugar; faltava algo em minha casa. Deitei em minha cama tentando recapitular a história e me dei conta do ruidoso silêncio.
Os trotes passaram. Por que a dona daquela voz sinistra estava tão feliz quando deu a noticia da morte do meu amor? Será que preferia vê-lo morto a ficar comigo? Ou será que ela levou a melhor e ficou com ele?
Será que em algum lugar do mundo eles estão juntos? Ele pode estar com ela, afinal não vi seu corpo. Desfalecido. Se ele estiver com ela porque devo sofrer tanto assim?
Quanta pergunta sem resposta. Agora estou só, pois todos foram cuidar de suas vidas e, apenas o cinzeiro cheio é testemunha da solidão.Penso que no escuro do meu quarto ele vem me proteger. Imagino porque Deus me deu tamanha cruz para carregar. Durante muito tempo, a dúvida corroeu-me a alma, até que finalmente tomei coragem de ir ao cemitério, onde nem precisei conferir seu nome, uma vez que deparei com sua foto em seu túmulo, onde lhe deixei uma flor. Um momento muito triste em que senti o tamanho de minha solidão, mas, ao mesmo tempo percebi que, apesar da saudade, a vida continua. Numa tristeza resignada, voltei para casa à pé para refletir sobre como teria que levar a vida adiante sozinha.

DOIS ANOS DEPOIS...

Toca o telefone. É o empregado do sitio, para negociar os limões e comunicar que a plantação foi um sucesso, a ponto até de nossa propriedade ganhar o apelido de sitio do Thaity. Para minha surpresa, a repercussão da safra foi tanta, que ao chegar em Minas, também fui tratada pelo mesmo apelido.
Lembrei-me de uma crença que ouvi em meus tempos de menina, que quando olhássemos o céu e uma estrela mudarem de lugar, era só fazer um pedido que este seria realizado.
Neste caso, o que pediria? Encontrar um novo amor? Não, de jeito nenhum!
Então, resolvi pedir um motivo para viver, passei meu batom, fiquei olhando para o céu até à meia noite. As estrelas se mantiveram no lugar, nenhuma se moveu, nem o meu pescoço e que consegui foi um “belo torcicolo”.
Mas insisti. Na noite seguinte decidi tentar de novo; coloquei um tapete no quintal, umas almofadas bem aconchegantes, passei meu batom vermelho. Agora sim, dava para ficar a noite toda esperando a estrela mudar de lugar. Quando foi mais tarde a lua, que fora minha testemunha de casamento ao lado das estrelas, apareceu com seu cavalo de São Jorge. Aproveitei e pedi:
- Madrinha lua! Mande-me um sinal de vida! Mas, parecendo ignorar meu pedido, ela apenas iluminava-me. Continuei olhando fixamente e pedindo para que me mandasse uma luz para me guiar.
Percebi que as nuvens dançavam em volta dela. Uma formava uma saia, outra hora uma perna de calça, ou um chapéu bem grande. Todas passavam pela lua dançando, como se fossem bailarinas. Resolvi tocar uma musica para o céu e de repente estava eu dançando também para a lua, com os braços erguidos deixando um espaço vazio entre os braços e meu corpo, como que abraçando meu amor. Dancei muito tempo, horas seguidas. Caiu uma chuva fina ou um sereno grosso, que enfeitou meus cabelos com gotículas prateadas que brilhavam refletindo a cor da lua. Senti-me tão linda como ela, minha madrinha, e decidi voltar a dançar.
Descobri que perdi o medo da chuva, que tudo que vem do céu é mandado por Deus. Nos fins de semana, faça chuva ou sol vou atrás do barulho, porque foi na dança que encontrei a vida...
Conheci uma professora de dança do ventre e a idéia atraiu-me. Imaginei-me dançando uma dança sensual em cima de um grande palco. Hoje, sou dançarina da dança do ventre, que, segundo a tradição, se dança para alguém muito especial. Nos finais de semana, misturo forró com dança do ventre, e deixo o suor escorrer pelo meu corpo, que assim fica mais leve.
Nas sextas, no salão de Ribeirão Pires FC, sábados na Estância e aos domingos na Polése, que agora é comandada pelo Hélio dos Teclados e sua equipe, também sigo meu o ritual que tanto tanto me dá prazer e que aprendi com meu amor.
Eu danço e sei que meu par um dia vai chegar. Sei também que danço diferente das outras pessoas, mas foi o jeito que a vida me ensinou e impôs a dançar... Também descobri que, quanto mais eu estudo, mais analfabeta eu sou, porque a arma mais poderosa contra qualquer tipo de injustiça é a caneta que agora tenho em mãos e tem o poder de me levar para qualquer lugar que a imaginação possa atingir. É o meio mais rápido de se viajar, mesmo que seja sozinha, como uma andorinha tentando fazer verão... Mas, na certeza de que atrás de mim outras andorinhas virão...
O que importa é que nesta grande viagem chamada vida, em minha mochila não carrego mágoa e nem saudade, apenas levo e sugiro a dança para os amigos que possam, de um jeito ou de outro, estar só. A partir da parceria que fiz entre a vida e a dança, encontrei a felicidade, estando ciente de que há varias de ser feliz e que todos podem encontrar o seu caminho...
Meu parceiro é o vento e, na corrente mais forte de ar, chego a flutuar, porque felicidade não tem peso e a liberdade não tem preço, mas é algo a se conquistar.
Se você que agora lê meus escritos de alguma forma se encontrar em minha historia, será mera coincidência. Mas é possível que se identifique com alguns aspectos dela. Afinal, todos os seres humanos, como, particularmente no caso das mulheres, como eu, a busca pela liberdade é um grande desafio, que implica em ter força e coragem, mas que certamente garante muita história para contar. Histórias construídas com dores, sonhos, alegrias e amores e cujo roteiro não tem receita pronta, mas depende de cada um.
Assim, ao contar fatos marcantes de minha vida, não tenho pretensão de sugerir modelos, apenas mostrar que é sempre possível renascer das cinzas e dar a volta por cima, basta não desistir de viver e de sonhar. E se possível encorajar outras pessoas que também contem suas histórias e como enfrentam a grande aventura que chamamos vida. Se tiver dúvida, comece pelo meio, principio ou fim. MARIA MEIRELES

A perda

Logo depois da viagem que fizemos em lua de mel, voltamos para São Paulo e fomos fazer um exame de rotina, periódicos anuais. A medica que nos atendeu disse que nele foi diagnosticado um probleminha no fígado, provavelmente seqüela do serviço que tinha realizado a vida toda - pois sempre atuou com produtos químicos fortes-, mas bastaria se cuidar que ficaria bem.
Comecei a cobrar dele as visitas ao medico, mas nunca deu importância a tal fato. Dizia que tinha saído da firma com aquele problema e que eu não me preocupasse, pois não havia nada de errado com ele: a médica teria exagerado quando explicou o exame, mas iria procurar outro médico, Porém, toda vez que eu tocava no assunto ele sempre tinha uma desculpa na ponta da língua e dava um jeito de escapar da conversa.
Cheguei a me tornar incoveniente, cobrando dele tais consultas e acabou que, depois que nos casamos, eu estava ficando chata, pegando no pé dele. Expliquei que queria meu marido, que tanto amava, com bastante saúde para que nós dois continuássemos a vida juntos por muitos e muitos anos, até não termos mais nenhum fio de cabelo preto na cabeça. Esta era a maneira de jurarmos amor eterno. Já não achava mais jeito de cobrar dele as consultas sem me tornar chata.
Um dia de julho foi aniversário dele e fizemos uma surpresa, com toda a minha família reunida em volta da mesa com bolo, doces e salgados, além de musica,dança e muita alegria. Ele ficou tão emocionado que chorou, Sequei suas lagrimas com as mãos e meus beijos e o chamei de meu bebe chorão. O resto da festa era “meu bebe” pra lá, “meu bebe” pra cá...O apelido ficou e com o passar dos dias passei a chama-lo de apenas de “Bê”, uma forma carinhosa que encontrei também para diferenciar do meu filho mais novo, a quem eu sempre chamei de “meu bebê”.
.Durante sua comemoração de aniversário fiz questão de deixar claro que aquela era só uma das festas em família e que muitas outras viriam.
- Se Deus quiser minha baixinha, disse ele, também repetindo o apelido com que carinhosamente sempre me chamava.
Então passei a prestar atenção nos seus olhos, que ficaram um pouco inchados, depois avermelhados e, aos poucos foram voltando ao normal, mas não totalmente, pois percebi que em volta da menina dos olhos havia uma cor amarelada, bem anormal. Como era dia de festa, preferi não dizer nada, pois ele estava se divertindo tanto que a festa durou até de madrugada.
No dia seguinte fui conversar com calma e expliquei que havia algo de estranho em seus olhos. Ele olhou no espelho durante um tempo e disse que eu estava louca e que os olhos dele eram assim mesmo, eu é que não tinha reparado antes. Disse que toda vez que passava muito tempo sem usar óculos, os olhos dele ficavam daquele jeito. E acrescentou ironicamente:
- Minha querida esposa ainda não conhece direito o marida que tem.
Porém, meu coração dizia que não estava tudo bem, mas era impossível levá-lo ao médico. Sempre com cuidado, eu voltava ao assunto, mas ele se mostrava irredutível e de maneira nenhuma aceitava que estivesse doente.
O problema se agravou profundamente e ele ficou todo amarelado, até que não teve outra saída a acabou procurando ajuda médica. Seguimos o tratamento, mas não houve melhora. Em uma sexta feira 13 de agosto, ele passou mal e admitiu que estava doente e pediu-me que o levasse ao médico.
Imediatamente, saímos em direção ao hospital mais próximo.E o diagnostico da equipe medica foi hepatite tipo C. Ficou internado e pediu para que eu explicasse para sua família o fato.
E eu fiz o que me pediu e em poucos minutos chegaram seus familiares, que me olharam de cara feia e fui colocada de escanteio, sendo inclusive impedida de visitar P... Senti-me maltratada, pois só conseguia conversar com ele pelo celular e expliquei que aquela situação era ridícula e não iria me submeter a isso. Mesmo assim, apesar de não concordar, aceitei continuar me comunicando apenas por telefone, enquanto aguardaria em casa a sua recuperação.Quando estivesse só, era só me ligar que eu iria para o hospital. Ele, no entanto, entendeu que o clima estava pesado e tinha muita gente ali, a ponto de atrapalhar o trabalho dos profissionais de saúde que lhe atendiam..
Sofri com esta separação, mas não havia outro jeito, além do mais seria por poucos dias, só até ele sair do hospital. Depois viria para casa para eu cuidar dele. Assim, nos falávamos por celular quando a saudade apertava. Mas, para minha surpresa transferiram-no para outro hospital, sem me comunicar e seus familiares desligaram o celular. Eu fiquei como louca e desesperada procurando seu paradeiro. Foram dias e noites em total desespero, sem pregar o olho e mal me alimentava. Chorava de saudades, sem noticias de meu amor.
Passei muitos dias à espera de uma informação. Passou um mês e nada; não chegou e nunca mais ligou. Passei a ficar sentada nos degraus da escada, dias e noites esperando a sua volta e nada dele chegar. Quando tentava me alimentar, as lagrimas faziam questão de temperar minha comida. Minhas narinas pareciam duas torneirinhas e tornavam impossível engolir alguma coisa. Cheguei a ter vertigens e minhas pernas ficavam fracas, mal agüentavam de pé.
Um dia depois de muito sofrimento já era madrugada, meu corpo já não agüentava mais ficar ali esperando sentada no chão frio, e no sereno da noite fui descansar na cama e logo adormeci um longo e profundo sono. Tive o mais lindo sonho que alguém pode sonhar: ele apareceu e pegou-me nos braços, levou-me para um campo florido e perfumado e de repente estávamos nos beijando como sempre. Era tantas flores que o gosto de seus beijos pareciam flores do campo.
Quando meu sonho foi interrompido com o barulho da campainha do telefone, levantei correndo e tropeçando, segurando pelas paredes e móveis que tinha pela frente, certa de que ele tinha encontrado um jeito de me ligar. Se eu estava morrendo de saudades dele, de certo ele também devia estar. Sem contar que sabia que sem ele eu não podia mais viver e que ele precisava encontrar uma maneira de se comunicar comigo. Sei que sabia que eu estava louca sem ouvir sua voz.
Peguei o fone mais rápido que pude e disse: - alô. A voz sinistra repugnante, nojenta e horrorosa, de tantos trotes respondeu meu alô.
A voz disse:
Ele morreu o enterro e as três da tarde. O tom de felicidade era inconfundível, mais condizente com alguém que tivesse ganhado o premio da loteria, não escondendo o sorriso na voz. A principio pensei que seria mais um trote, mas depois da conversa eu cai na realidade: era o tiro que ela prometia costumeiramente pelos trotes...
Mas, ao contrário de alvejar minha cara, conforme as ameaças, o tiro foi certeiro em meu coração. Cai, perdi as forças nas pernas, faltou o ar para respirar, a vista escureceu e apaguei ali mesmo. Só voltei recobrei os sentidos no dia seguinte, quando a ficha caiu: havia perdido meu amor..
Confusa, sem saber ao certo o que era mentira ou verdade, se ele havia mesmo falecido, cheguei a pensar que era apenas mais um trote e que ela tinha convencido ele de alguma maneira a ir morar com ela. Seja lá como fosse, jamais aceitaria tal perda.
Não desisti de procurá-lo dia e noite e caminhei sem destino; gritei seu nome em todos os lugares, onde provavelmente poderia estar. Durante noites caminhei no meio do nevoeiro, esperando encontra-lo. Chegava a ouvir passos, corria a seu encontro, mas quando me aproximava não era ele: só decepção. Noites e noites percorri os lugares onde dançamos: no Amarelinho; Livre Escolha; Bar da Jane; do Paixão; do Paraíba, Padaria da Vila Gomes, enfim Ribeirão Pires de ponta a ponta. Nunca mais o vi. E aquele par de alianças que é o símbolo do nosso amor, além de minhas lembranças, é tudo o que restou de nossa união e não tem mais valor para ninguém, só para mim. Um símbolo que ninguém pode apagar, pois mesmo que esteja no mar, na terra ou tenha virado pó, ela simboliza um grande amor. .
Nossos álbuns de foto, brincando em parques, montando nos balanços, rodas gigantes,carrinho de batida, rolando no capim do Parque Municipal Milton Marinho de Moraes e nadando nos rios de varias cidades de Minas Gerais, também são lembranças de momento felizes, mas que hoje também se misturam a uma grande saudade.Tudo isso foi escondido de mim pela família, na esperança de que ele voltasse à vida, para que eu conseguisse esquecê-lo, mas é inútil. Jamais poderia esquecer alguém que me fez ver a vida, me mostrou a felicidade e que o verdadeiro amor nunca morre: é eterno.

Os trotes

Sempre que chegava em casa feliz, exalando amor por todos os poros, seja lá que hora fosse, invariavelmente o telefone tocava e uma voz muito mal disfarçada - como se a pessoa estivesse engasgada ou de boca cheia – vinha sempre com a mesma conversa. Dava ordens expressas para que eu deixasse meu amor, dizendo que ele a pertencia, que ela já havia tirado ele da família e que comigo não iria ficar.
Imagine! Se eu esqueci até as ordens de mamãe, agora iria dar ouvidos a trotes de alguém que nem sequer se identificava? Os trotes continuaram e passaram a ser quatro ou cinco vezes ao dia, a ponto de ter que tirar o telefone da tomada para que eu pudesse ter um pouco de sossego. A pessoa começou a usar palavras de baixo calão como vagabunda, prostituta, ladra etc...
Continuei não dando importância, apenas desligava o aparelho para dormir ou descansar durante o dia. Sempre feliz, dançando e cantando, queria ver no mundo alguém mais feliz do que eu...
Os trotes começaram a incluir ameaças de morte, com um tiro na cara. Não me intimidava e até ironizava: - o que é um tirinho perto de tanta felicidade? Com certeza a bala voltaria de onde veio ou se eu morrer serei, sem duvida nenhuma, a defunta mais feliz do cemitério onde fosse sepultada. Eu ter medo de morrer, difícil! É mais fácil eu ter medo de viver.
Os trotes eram contínuos, mas nunca tive tempo de me preocupar com eles. Afinal, estamos cada vez mais unidos e, pela primeira vez, depois de quatro anos livre de um casamento por obrigação e sem amor, vivia uma paixão arrasadora que nunca tinha experimentado.
Quando jurávamos amor eterno um para o outro, dizíamos vamos nos amar até a cabeça ficar branquinha, sem nenhum fio de cabelo preto À noite rezávamos juntinhos com a mão oposta pedindo para nossa senhora Aparecida que permitisse que ficássemos juntos por muitos e muitos anos.
Com o passar do tempo, a convivência com minha família era muito boa, pois meus filhos o consideravam como a um pai e até diziam que seus conselhos eram ótimos e que, com suas palavras calmas e doces, falava pouco e bem acertado. Minha admiração, é claro, também era muito grande a ponto de então, não fazer mais nada sem sua opinião. Éramos o casal perfeito e muito romântico. Bastava estar juntos para trocar beijos e caricias de amor, às vezes durante todo o dia. Escrevíamos bilhetes amorosos e perfumados e deixávamos por onde o outro passava.
Sabia que ele iria deitar depois do almoço ou jantar, então deixava um bilhetinho dentro da fronha do travesseiro e ficava aguardando que o encontrasse, na certeza que após ler meu recadinho, logo iria me chamar:
- Baixinha! Baixinha! Vem ver o que eu achei aqui!
Claro que sabia que era meu bilhete, mas sempre perguntava: o que é?
Então, me respondia com uma voz dengosa:
- É uma loucura muito louca, mas muito deliciosa.
- Pois eu quero tudo que está ai! Agora! – “Ordenava” eu, que a cada dia usava a imaginação para escrever uma coisa diferente, geralmente fantasias ou loucas posições para fazer amor. Os lugares onde deixava os bilhetes também variavam muito, às vezes os colocava até dentro do copo em que ele gostava de tomar café. Divertia-me vê-lo ansioso pelos tais bilhetinhos, que buscava pela casa e muitas vezes só encontrava depois de longa demora, apesar das pistas que eu dava. Eu ia dizendo se estava quente ou frio, morno ou gelado, até encontrar e descobrir o que eu queria dele ou ele de mim naquela noite, que eu sabia, sempre seria melhor que as anteriores.
Os trotes, no entanto, nunca pararam de acontecer, até um dia em que eu estava agitada, o telefone tocou. Respondi à altura de minha rival anônima e desliguei. Quando coloquei o fone no gancho, tocou de novo, no mesmo instante. Então, peguei o telefone com raiva e disse barbaridades. Só depois descobri que era outra pessoa inocente na linha. Mesmo assim, fiquei com a pulga atrás da orelha. Será que era inocente mesmo? O fato é que até hoje não descobri e nunca pedi desculpas, pois não tenho tanta certeza da inocência dessa pessoa. Um dia resolvi conversar sério com meu amor a respeito dos trotes.
Ele respondeu que foram os mesmos que destruíram seu casamento e que, pelo amor de Deus, eu não desse ouvidos a tais fatos. Só então me contou que no passado bem distante, teve um caso com uma prostituta e que a havia engravidado. Acrescentou que, além de lhe tirar até as cuecas, até hoje ela perseguia-o e achava que ele não tinha o direito de ser feliz com outra mulher. Insistiu que também não me preocupasse, pois não passava de uma louca. - Este é o fim de prostitutas quando vão ficando velhas e querem pegar um homem para cristo.
O telefone tocava e a voz passou a implorar para que eu abandonasse meu amor, mas continuei não dando importância e preferi acreditar nele. Se ele disse está dito! Jamais duvidaria do homem que agora era meu marido.
Completamente cega de amor, não via um palmo diante do meu nariz. No mundo não existia mais nada e ninguém, apenas o amor nos bastava. E foi tendo a lua como testemunha, as estrelas como benção de Deus, que trocamos alianças e juramos amor eterno. Cheguei em casa com uma linda aliança no dedo da mão esquerda e que tinha gravada o seu nome com a data 12/01/2003. Segui o mesmo ritual, colocando em seu dedo outra aliança com o meu nome gravado. Anunciei a união para a família e viajamos sem destino certo.
Uma volta ao mundo em lua de mel. Ele conheceu localidades que queria conhecer e eu, também pude visitar cidades históricas, como Ouro Preto, que tinha vontade de conhecer. Em cada lugar por onde passamos juntos, tenho certeza de que ficou um rastro de amor. Com nossa avassaladora paixão, não passávamos despercebidos e parecíamos causar inveja em muita gente mal-amada e solitária, coisa que existe muito nesse mundo afora..

O Motel

O Motel



Romântica e calmamente, P... pegou-me pela mão, deu-me um beijo rápido nos lábios e saímos em direção ao carro dele, que estava estacionado bem na nossa frente.
Eu entrei no carro, sentei-me ao lado dele e coloquei o cinto de segurança.
Bem que queria mais um beijinho, mas estava entretido tirando a trava do carro, arrumando o espelho, colocando o cinto de segurança: fiquei aguardando a saída.
Percebi que não era só eu que queria mais um beijo; antes de ligar o carro, ele olhou para mim e mordeu os lábios. Eu sorri em resposta àquele gesto, então ele tombou o corpo, segurou com carinho minha cabeça e beijou-me longamente. Depois ajeitou meus cabelos, limpou meu batom borrado, e disse “minha linda...”.
Ligou o carro, arrancou como se quisesse que o carro voasse, o que me deixou preocupada:
-- Calma, você está correndo muito; devagar também chegamos!
Ele maneirou o pé no acelerador e respondeu:
-- Você tem razão, não temos motivo para correr, temos todo o tempo do mundo; a noite é uma criança.
Conforme o carro andava, fiquei um pouco nervosa, pois não sabia onde estava indo, e nem o que ia acontecer.
Logo apareceu a placa iluminada “Motel...”. Percebi a freada e a seta do carro ligada naquela direção. Meu coração bateu forte que podia ouvir as batidas que ele dava, minhas mãos transpiravam e escorregavam facilmente uma na outra.
Chegamos ao motel, ele abriu a porta, pegou-me no colo; eu segurei em seu pescoço e o beijei longamente e devagar caminhando até a cama.
Nós dois lado a lado trocamos caricias e juras de amor.
De repente ele tirou os sapatos. Eu olhei pra cima e avistei um espelho:
-- Olha, um espelho no teto! Disse eu admirada.
Percebi o tamanho fora que tinha dado... Denunciei que nunca havia estado num lugar como aquele antes.
Fiquei de pé observando... Tudo ali era lindo, bem arrumado e limpo. Muitos espelhos, em toda direção eu me via. Até brinquei com meu reflexo reproduzido espalhado pelo quarto.
Ele já havia tirado os sapatos e eu também tirei as sandálias.
Acho que no lugar onde estávamos, tínhamos que tirar muitas outras coisas... Mas o que sairia primeiro? A iniciativa deveria partir dele, pensei... Mas será que é dele mesmo? Será que se partir de mim ele fará mal juízo, pensará que sou uma qualquer? Uma mulher da minha idade, na minha posição, naquele lugar, tem o direito de se preocupar com isto?
Fiquei olhando para ele, que se encontrava em minha frente. Ele desabotoou o cinto lentamente, tirou, enrolou e colocou no criado mudo da cama.
Pensando em ganhar tempo, tentava descobrir que peça eu podia tirar, já que ele havia tirado o cinto. Senti-me na obrigação de tirar uma peça também.
Aí me lembrei dos brincos, não durmo de brincos. Fui caminhando e tirando até a mesa no canto do quarto. Coloquei os brincos sobre a mesa e dei a entender que iria tirar muitas outras coisas. Fui tirando anéis, pulseira, relógio, colar, meias-finas, faixa dos cabelos...
Foi um jeito de pressionar ele a tirar primeiro. E deu certo, pois quando me virei ele já havia tirado a camisa e estava terminando de tirar a calça. Senti-me aliviada, como se tivesse ganhado um troféu! E pensei comigo: “Te peguei, fiz você tirar primeiro”.
Mas e agora? Ele estava só de cueca e eu com toda a roupa... Então abracei a mim mesma com os dois braços, como se me protegesse de alguém. Dei a entender que não ia tirar mais nada.
Com toda calma, ele caminhou em minha direção, estendeu-me as mãos, ficou e uns segundos com elas estendidas até que eu coloquei minhas mãos dentro das dele.
-- Vamos sentar aqui para conversarmos um pouco – Disse ele, complementando com um elogio às minhas mãos, dizendo que eram pequeninas e lindas.
Não pude deixar de notar que ali em minha frente tinha um homem só de cuecas! Eu olhava intensamente seu corpo de cima a baixo, sem perder a proteção de minhas roupas.
Ele segurava minhas mãos delicadamente; senti-me tão transparente, como se não pudesse esconder nada dele. Parecia que lia os meus pensamentos. Comecei a ficar trêmula, com as mãos geladas e a gaguejar. Não saía nada com nada... Como dizer que não quero mais, se na verdade quero? Como dizer que quero, se estou tão nervosa desse jeito?
Sentei ao lado dele, que puxou um assunto que nada tinha a ver com a ocasião... Começou a contar piadas engraçadas, que disse ter ouvido nos bares, por aí.
Eu comecei a dar risadas, acabei me descontraindo, sorrindo com ele... Foi como se o homem de cuecas na minha frente ficasse natural, já não via nada demais.
Tive vontade de tocar seu corpo. Passei a mão em suas costas e percebi que a pele era tão macia e gostosa de tocar... Encostei meu nariz em seu pescoço - a pele era tão cheirosa! -, toquei seus cabelos macios e grisalhos na fronte.
Ele disse:
-- Percebeu que estou de cabelos brancos? Já estou ficando velho.
-- Que velho que nada, está lindo! Respondi.
Então, ele aproveitou a oportunidade:
-- Tira esta blusa para que eu também possa tocar seu corpo, assim como você tocou o meu e me fez sentir tão bem.
Colocou a mão dentro da manga da minha blusa, as mãos eram tão macias, que tive vontade de ser tocada no resto do corpo. Tirei a blusa e ele beijou minhas costas, tocou meu pescoço com as mãos, beijou-me na boca, depois o queixo, depois o pescoço. Passou os dedos no começo dos meus seios e fez-me sentir seus dedos deslizando para as costas desabotoando meu sutiã. Quando senti que o sutiã atrapalhava, eu mesma terminei de tira-lo. E quanto mais ele fazia carícias, mais eu queria.
Então passou as mãos nas minhas coxas, por cima da calça jeans e lentamente desabotoou-a na cintura.
-- Deixe-me ver seu corpo, fique de pé. – Disse ele.
Então terminei de tirar minhas roupas e novamente estávamos empatados: ele de cueca e eu de calcinha.
Nos beijamos muito mais do que muito. E cada vez queria mais me deitar naquela cama, entrelaçar suas pernas em meu corpo. Foi então que num estalar de dedos as peças de roupas restantes sumiram.
Seu corpo dentro do meu, nada mais importava no mundo todo. Não existia mais ninguém, apenas eu e ele. Os problemas do dia-a-dia simplesmente ficaram tão pequenos, quase insignificantes. O importante era a grande felicidade de estar a seu lado, o que me fazia sentir mulher e protegida, não apenas naquele momento, mas em toda vida...
O que importava mesmo, além de nossos momentos de amor, eram as sextas-feiras, quando dançaríamos no Ribeirão Pires Futebol Clube, sábados no Figueiras, embalados pelas músicas do cantor Hélio dos Teclados, e aos domingos na Polese, ou em outro lugar qualquer. Para depois de cada baile, com os corpos suados, tomar banho juntinho e começar a fazer amor embaixo do chuveiro e terminar na cama. Depois dormirmos juntinhos até a segunda-feira de manhã.
A música tocada no radio do carro também era pretexto para prolongar os bailes, fazendo surgir uma química que balançava nossos corpos, que obrigava a parar o carro e dançar na rua mesmo, à luz dos faróis dos veículos ou à luz do luar, nas noites claras. Assim, por muitas vezes dançamos desde o salão nobre de Ribeirão Pires até o acostamento da pista Tibiriçá
Ficamos dependentes da musica: Se ele estava em casa e nossa musica era tocada no radio em qualquer estação, imediatamente pegava o telefone, me ligava e dizia: “Ouve nossa música, está sendo tocada em tal estação”, e eu imediatamente a sintonizava, e longe um do outro, mas perto pelo coração, juntinhos dançávamos a nossa musica preferida Morango do Nordeste, com Frank Aguiar.
Além de ficarmos juntos às sextas, passamos também a ficar juntos às quintas-feiras, até passarmos a nos encontrar a semana toda. Visitamos todos os motéis da redondeza... Até a árvore na estrada Velha de Santos foi testemunha de nossa paixão.
Cada despedida era triste; estávamos dependentes um do outro. A cada refeição um lembrava do outro, e sempre um ligava e perguntava o que o outro ia comer naquele dia.
Se achássemos que a comida do outro estava mais gostosa, sempre dávamos um jeito de comer juntos, sem perceber que a comida era apenas uma desculpa para nos encontrar, é claro. Comendo no mesmo prato, com um só talher. Sentada no seu colo, dando-lhe comida na boca, vestidos como nascemos... Esta sim, era a refeição mais gostosa do mundo...
Em pouco tempo éramos um só coração, um só pensamento. Juntos parecíamos fazer o chão de Ribeirão tremer diante de nosso lindo caso de amor.

Cap 8 A Paixão

A paixão

Não demorou muito e o final de semana chegou. O telefone tocou e ao atender uma voz masculina disse que gostaria de falar com Maria.
.- Pois não, pode falar! - Sou o P..., seu amigo do restaurante. Estou ligando para aquela dança prometida.
- Você esta falando serio?, indaguei meio surpresa, pois não esperava que cumprisse a promessa.
- Claro que sim! A que horas passo para lhe pegar?
- Ah! Não sei. Nunca sai assim,você é quem sabe.
- Ta bem, às nove passo para lhe pegar. O endereço é o mesmo do antigo barzinho?
- Sim moro no mesmo lugar. Espero às nove então, tchau!
Procurei roupas no meu guarda-roupas inteiro e não sabia como me vestir. Imaginei que se eu fosse de social e todos estivessem vestidos esportivamente ou se fosse ao contrário.
- Meu Deus, como será este lugar?
Depois de vir a baixo o guarda-roupa inteiro, decidi usar uma calça branca, com uma blusa preta e um blazer preto, meia estação.
Pelo sim e pelo não, me arrumei e fiquei pronta.
Às nove em ponto ele chegou como um perfeito cavalheiro; abriu a porta do carro e disse:entre madame.
Eu entrei e sentei ao lado dele. Fiquei um pouco sem graça e nem sabia bem o que dizer, pois parecia que tinha mais de duas mãos. Meio nervosa, acabei passando isso para ele e ficamos uns minutos olhando um para o outro.
Quando resolvi falar alguma coisa, que nem sabia o que ia tentar dizer; ele também decidiu falar algo.
- Ah,eu?
- Desculpe-me! Fale você primeiro, eu disse.
- Ah não é nada, até me esqueci.
- Eu também esqueci o que ia dizer – repeti e acrescentei em tom de brincadeira que quando a gente se esquece o que ia dizer é porque é mentira.
Ele respondeu:
- Não eu jamais mentiria para uma dama.
- Obrigado pela parte que me toca.
- Para mim você é uma dama.
- Obrigado.

- Para onde você gostaria de ir? Perguntou.
- Não conheço nada! É a primeira vez que saio à noite desde que me casei lá onde Judas perdeu a bota.
- Eu tenho andado por ai apenas para passar o tempo e, com você vestida assim, confesso que nem sei onde te levar.
- Não importa onde. Hoje, preciso apenas de uma companhia para conversar.
- Eu também. Tudo que preciso é conversar com alguém que me ajude a resolver meus problemas e tomar algumas decisões, ou apenas jogar conversa fora.
- Que bom que nos encontramos, temos algo em comum.
Ficamos conversando ali mesmo, com o carro estacionado. O tempo foi passando, fomos nos entretendo e o papo se estendendo. Ficamos falando de nossas dores e mágoas passadas e lavando a alma.
Ate que nos dar conta o sol raiou e já era dia e não tínhamos saído do lugar.
- Isto é incrível! Passamos a noite inteira sentados aqui e não nos cansamos.
A conversa foi tão agradável, que eu estava disposta a enfrentar o dia contente e nem sabia porque.
Ele disse:
- Sinto muito! A dança vai ter que ser adiada, pois a essa hora todas as danças da cidade terminaram. Mas não tem nada não. Prometo que logo mais venho te buscar de novo e vou me informar na cidade para lhe levar em um lugar bem legal.
- Ok! Agora tenho que entrar: o dia vai começar para nos dois.
- Ate às nove da noite e, desta vez, para dançar.
- Até as nove. Tchau.
- Às nove em ponto, o ronco do carro estava no meu portão. Ele chegou e repetiu a mesma cena todo perfumado e bem trajado.
Eu estava à altura também; bem maquiada e em cima de um salto toda feliz.
Assim que entrei no carro, ele tinha destino certo: o bailão da Estância Alto da Serra, com Theodoro e Sampaio. Começamos a dançar, as vezes pisamos no pé um do outro ou no pé de alguém, mas lá estávamos nós dançando e assim ficamos a noite toda. Só paramos para beber água.
Lá pelas quatro horas, o artista mudou a música, que agora tocava uma mais lenta e romântica, para os apaixonados. Demoramos um pouco para acertar um passo mas logo conseguimos um encaixe.
Com os passos acertados e rostos colados, dançamos igual bailarinos. Não sei bem o que aconteceu, mas o cheiro do suor com o perfume dele resultou uma química louca, que me deixou atraída e, com o clima romântico, pintou um cheiro de amor no ar.
Minhas mãos pareciam tão pequenas dentro das mãos dele, que segurá-las fortemente me faziam sentir protegida. Nossos corpos colados de cima a baixo ,eram um só naquele momento, quando então senti que minhas mãos esfriavam cada vez mais e minhas pernas pareciam bambas, apoiadas nas dele.
Quase nem agüentava o peso do meu corpo, que cada vez mais ia de encontro com o dele, formando uma espécie de tique nervoso,e tremia constantemente, já não mudando os passos que a musica pedia. Minha respiração ficou mais ofegante e podia sentir seu coração batendo mais forte.
Coloquei a mão direita sobre seu peito, mas não me dei por satisfeita, desabotoei seus primeiros botões e pude sentir seu corpo quente; fiz uma caricia em seu peito. A mão esquerda, coloquei debaixo da camisa em suas costas e apertava cada vez mais meu corpo no dele. Não tenho mais como descrever a emoção, que um ser humano pode sentir nesse momento celestial e ir para o paraíso sem sair da terra, não tinha como disfarçar o sentimento.
Quando ele olhou em meus olhos, o brilho ofuscava a nossa visão e, antes mesmo de encostarmos os lábios um no outro, já pude sentir o gosto do beijo.
Foi quando lentamente fomos colando lábios nos lábios, beijo com beijo, nossos lábios se abraçaram, nossas línguas brincavam em nossas bocas, como a saborear uma fruta qualquer ou um sabor não definido. Só sei que era muito bom.
Não tínhamos mais nada a fazer naquele lugar. O sol já vinha raiando, logo seria dia e teríamos que voltar parta a casa.
Durante o caminho mantivemos silêncio por um bom período, até quando ele fez a pergunta:
Será que você aceitará meu convite de novo pro baile na semana?
Respondi claro e em bom tom;
Claro que sim. Porque não?
Ele disse:
Fica combinado para sexta às nove, Ok?
Preferimos nos despedir apenas com um beijo no rosto.
Fui tomar um longo e bom banho e um café bem forte para encarar o dia.
Passei o dia intrigada com o acontecido – aliás, não só o dia mas também a noite e a semana também. Mas percebi que a semana foi muito boa, pois sentia uma felicidade que não sei de onde vinha e que me tomou como uma onda no mar; meu corpo flutuava cada vez que lembrava daquele cheiro de suor junto com nossos perfumes.
Esqueci de todo. E qualquer problema que tinha para resolver parecia mais fácil; a solução aparecia num estalar de dedos. Tudo para que sexta-feira pudesse estar livre e sair de novo para dançar e sentir aquele corpo junto ao meu.As noites foram cumpridas, pois quando deitava na cama, minhas mãos procuravam aquelas mãos fortes e macias, minhas pernas debatiam na cama procurando outras pernas para se aquecer e eu rolava na cama de um lado para o outro, procurando alguma coisa para substituir seu corpo junto ao meu.
Então, juntei algumas almofadas da cama paralelas ao meu corpo,entre as pernas e apertava forte, fechei os olhos e pude ouvir de longe o som dos instrumentos tocando em meus ouvidos. Respirando bem fundo, senti aquele cheiro gostoso, aquele homem, aquela sensação gostosa, o frio na espinha que não sei se vinha de baixo ou de cima e o cheiro do amor no ar. O perfume dele estava impregnado em meu nariz, então respirei fundo procurando uma explicação para eu mesma, mas meu cérebro não queria saber de explicações e gritava pelo seu nome; minhas mãos exigiam a presença daquelas mãos, ate as pontas dos meus dedos procuravam desesperadamente o corpo dele para tocar. E eu contava cada minuto no relógio para vê-lo outra vez.
Até que o tão esperado momento chegou às nove da noite de sexta feira. Eu aguardava ansiosa no portão, tentando achar um jeito para esconder minhas emoções e ensaiando palavras que não denunciassem meus sentimentos por ele.
Quando ele chegou tive a mesma impressão dele. O que eu não pensei foi que tinha jeito para esconder, pois era uma fulminante paixão, que estava brotando em nossos corações e nenhum de nós estava sabendo lidar com isso direito.
Cada momento juntos tornou-se mais intensos a ponto de perdemos a razão. Saímos para dançar pela segunda vez, agora na sexta dançante, no salão nobre de Ribeirão Pires FC. Logo que começamos a dançar de rosto colado, meus dedos já tinham destino certo: seu corpo.
A coisa foi ficando boa mais escurinho de um jeito que não chamássemos muita atenção. Lembrando sempre que:”o amor é cego mas os vizinhos não”, não demorou muito e o convite saiu .
Vamos a um lugar mais reservado para conversarmos e ficarmos a sós, como por exemplo, um motel?
Você topa?
Eu louca para realizar o sonho que tanto sonhei acordada durante as noites de insônia.Tentando não denunciar que na arte de amar era ainda leiga, não tinha muita experiência, pois nunca passei de esposa comportada e mãe dedicada.
Tentei dar a entender que sabia de tudo, topei na hora e pensei: Não pode acontecer nada mais do que já tinha acontecido antes.
e procuramos um jeito de sair da multidão e encontramos um cantinho

7 Capitulo

O ENCONTRO COM O AMIGO

Depois que fiquei viúva, ficou tudo para eu tomar conta: o sitio e outras propriedades; não sabia nem por onde começar. Pois meu marido nunca deu direito de opinar em nada, agora era eu quem tinha que tomar conta do negócio.
Então fiz uma visita ao sítio, onde havia plantação, e estive conversando com os empregados e anotando tudo que via, fazendo as perguntas mais primárias que até a filha do caseiro de sete anos sabia e eu não.
Tratava-se de uma plantação de hortaliças, além de algumas cabeças de gado leiteiro e duas casas que estavam fechadas. Contratei advogados para cuidar do inventario e comecei a me integrar no assunto, com muitas dificuldades. Eram tantos papéis que eu estava toda atrapalhada e não sabia o certo o que eu estava fazendo, mas mantive a cabeça erguida com ar de “sabichona”.
Foi numa dessas andanças para cima e para baixo, que um dia passando pela avenida Miguel Prisco, no centro de Ribeirão Pires vinha eu andando tranqüilamente e lendo os documentos com atenção pela rua, quando avistei um homem caído no chão. Já havia até passado por ele, quando resolvi olhar para trás e percebi que o homem estava bem trajado e nem de longe parecia um mendigo.
- Será que passou mal e desmaiou por aqui? Perguntei em pensamento.
Meu lado de enfermeira falou mais alto e resolvi voltar e verificar o que estava acontecendo. Aproximando-me daquele homem deitado na calçada, com o braço cobrindo o rosto, então o chamei: - Moço, moço! Como ele não respondia, tirei seu braço do rosto e levei um grande susto.
Para minha surpresa, era meu antigo freguês, aquele homem educado e fino, que estava ali caído na calçada. Chamei pelo seu nome, dei uma sacudida e percebi que estava embriagado com o rosto ferido, como se tivesse caído de cara no chão.
- Pereira,seu louco, acorde! O que você está fazendo de sua vida?
Ele abriu os olhos lentamente e perguntou:
- Quem e você?
- Uma amiga.
- Não tenho amigos, me deixe em paz!
- Tem sim,eu.
- Não me lembro de você.
- Não importa! Levanta daí vamos conversar!,
Puxando-o para que ficasse de pé. Ele tinha as pernas tremulas e voz enrolada, mal entendia o que ele falava. Consegui por ele de pé, o fiz se apoiar em mim e disse:
Vem comigo, vamos embora daqui!
Ele recusou:
Não quero ir para lugar nenhum.
Eu disse:
Toma vergonha e vamos dar um jeito nessa cara que esta feia.
Caminhamos até o bar mais próximo, peguei um copo de leite e o fiz tomar e logo parecia estar melhorando, então falei que ia leva-lo para casa, mas ele recusou meu chamado e acrescentou:
- Todos me abandonaram e deixaram minha casa vazia e se foram: filhos; esposa e, por isso, virei um cachorro de rua.
Andando e conversando, eu o trazia na direção em que dizia morar. Pelo caminho, ele vinha dizendo que sabia lavar, passar, limpar a casa, mas cozinhar não. - “Nunca aprendi nem fritar um ovo”.
- Às vezes – acrescentou - como na rua quando me dá fome e com isso emagreci vinte quilos. Até que fim ele disse: Moro aqui graças a Deus nós chegamos. Pode voltar daqui, e muito obrigado!
Eu disse:
- Não vou voltar daqui. Já vim até aqui, vou lhe levar até lá dentro e cuidar de você!
Com dificuldade, ele tentava tirar a chave do bolso, depois tentava achar o buraco da fechadura, até que perdi a paciência, peguei as chaves das mãos dele e abri o portão.Caminhamos até a porta de entrada, quando ele insistiu:
Obrigado por me trazer, pode voltar!
- De jeito nenhum – retruquei. Pode me mostrar qual é a chave da porta.
- É esta daqui .
Lá dentro não tinha quase nada, apenas uma cama no quarto e um tapete na sala, na cozinha uma mesa com quatro cadeiras e um fogão ainda embalado e novo.
- Entre vou dar um jeito em você rapidinho. Quer ver?
Ele se assustou e perguntou:
O que vai fazer?
--Vou te dar um banho e cuidar dessas feridas ai. Fui logo tirando a roupa dele e dizendo sou uma profissional da área de saúde. Meu nome é Maria e, por favor, colabore.
Ele começou a chorar e deixou que eu desse banho nele.
Enquanto isso, ele me dizia:
- Ali na gaiola esta o único amigo que me restou nesta vida.
Olhei para a gaiola e perguntei:
- É assim que cuida de um amigo sem água e comida? Pois lhe digo: animais precisam de carinho e cuidados. Se não deixe-o ir para que a natureza cuide dele.
Então dei um banho limpei as feridas e fiz curativos. Na mesa, havia uns pães e chá, que fiz e servi a ele. Coloquei-o em sua cama, dei um beijo em sua testa e fui cuidar de quem disse que era seu amigo: pássaro.
Dei uma ajeitada na sua louça e quando voltei ao quarto ele dormia profundamente. Então escrevi um bilhete, assim:
“Amigo, não tive coragem de lhe acordar. Você dorme feito um anjo. Mas, deixo meu telefone e por favor ligue assim que acordar.
Beijos Maria”
Joguei a chave por debaixo da porta e fui embora para minha casa. Naquele dia, ele não ligou; esperei alguns dias e nada.
Então, pensei que se não ligou é porque estava bem. Continuei meus afazeres e sempre estudando. Nunca mais parei de estudar; estou sempre lendo; aprendendo coisas novas; fazendo muitas amizades; viajando bastante, sempre de São Paulo para Minas Gerais. Minha vida ficou bem agitada e quase não tinha tempo de me alimentar direito. Ali mesmo no centro de Ribeirão os cardápios estavam escritos: ”Quarta-feira feijoada R$5,00”,já passava mais de uma hora da tarde e o estômago falava mais alto, quando resolvi entrar para almoçar e experimentar o prato do dia.
Quando ia me sentando devagar, olhando para os lados e observando a clientela rapidamente, visualizei um homem de cabeça baixa e que apenas observava o prato cheio à que parecia permanecer intocado à sua frente. Olhei e percebi que lá estava ele, o Pereira todo triste, o meu amigo que não via há dias.
Eu fiz um psiu para chamar sua atenção e, quando me viu, fez um gesto com o polegar como se perguntasse se estava tudo bem.Eu respondi acenando com a mão e fazendo gesto com a cabeça que sim. Ele deu um sorriso e acenou para que eu fosse ate sua mesa. Caminhei até bem próximo, pedi licença e me sentei.- Poxa quanto tempo! – reclamei - Fiquei esperando o seu telefonema e você nunca me ligou.
Um pouco sem graça, ele alegou ter perdido o telefone e eu disse que não tinha problema e que só queria saber como estava. Fiquei preocupada com você.Pensei que tinha se mudado.
Ele respondeu:
- Na verdade, fiquei com vergonha de lhe preocupar. Você sabe o estado que me encontrou e, alem disso, não tive coragem de lhe preocupar com meus problemas.
- Ah, deixa disso, vergonha porque? – comentei. Isso é coisa a que todos nos estamos sujeitos na vida.
Sempre em tom de brincadeira, com sorriso nos lábios, o papo estava ficando descontraído. Estávamos comendo e sorrindo dos fatos e sem cerimônias, almoçamos.
Ai veio aquela pergunta boba que nem sei porque perguntei.
-- O que você anda fazendo pra se divertir?
- Eu? Eu ando por ai procurando diversão na noite. Gosto muito de dançar e sempre encontro uma doida pra dançar comigo.
--Eu também adoro dançar, ou pelo menos adorava, antigamente quando criança lá no interior ao som do violão de papai, acrescentei.
-- Aceita qualquer dia desses sair comigo para dançar? Com todo respeito e claro!
A resposta veio de supetão, sem pensar - Claro que sim, adoraria!
Pensei que aquela conversa não ia a diante e que era apenas um papo furado, para passar o tempo;
Ele ficou de ligar antes para combinar.
-- Não esquecerei este convite! Disse eu, sorrindo e lembrando que ele disse que perdeu meu telefone.
Fui me levantando e dizendo: - Sinto muito tenho que ir.
- A conta e minha, disse ele em tom cavalheiro.
- De jeito nenhum, eu pago! Retruquei.
- Ficarei ofendido se não deixar eu pagar esse almoço, a sua companhia foi tão agradável que até acabei comendo. Se você não tivesse aparecido, com certeza eu não teria almoçado tão bem como almocei, insistiu.
- Fico feliz com isso, mas não tem cabimento você pagar a conta. Então eu proponho uma solução: rachamos a conta.
Ele respondeu que de jeito nenhum: - Essa conta é minha! Se não, também não tem convite para dançar.
Achei tão engraçado aquele apelo que dei uma risada gostosa e espontânea, pois não tinha levado a sério aquele convite.
O tempo estava passando e para por um ponto final na conversa eu cedi:
- Esta bem! Hoje você paga, mas a próxima e minha!
- Fechado prometo que deixo você pagar a próxima.
Ele abriu a carteira, ficou olhando por uns segundos e tirou o meu bilhete o que eu havia escrito a muito tempo atrás. Olhei para ele disse:
- Você mentiu quando disse que havia perdido meu telefone?
Ele respondeu:
- Só dessa vez, mas o resto e verdade.
- Eu acreditei e não ia lhe dar de novo.
Ele pagou a conta e fomos saindo juntos do restaurante. Demonstrou estar bem melhor fisicamente e psicologicamente. Despedimo-nos com beijinhos no rosto e cada um foi para seu lado.

Cap 6 – A separação

Na viagem de volta a São Paulo, fiz questão de vir no banco de trás; sentar ao lado do companheiro de 20 anos de casamento, já não fazia sentido. Pelo retrovisor do carro sempre ele me olhava. Com estes anos todos juntos era capaz de ler até meus pensamentos.
Após 12 horas de viagem de volta com a família pra São Paulo, eu como passageira no banco de trás, sequer levantei ou aceitei tomar água. O desgosto estava estampando no meu rosto, olhar fixo no motorista da frente, os dentes as vezes faziam barulho, de roçar um no outro, as vezes pegava na ponta dos lábios a ponto de sangrarem.
Tudo que passei neste tempo todo ao lado de um homem que um dia prometeu-me amor e respeito todos os dias de nossas, fui revirando em minha mente. Percebi o tamanho do estrago que fiz comigo mesma. Lá se fora a juventude, a beleza, a esperança e as ilusões. Depois de tanta luta e sofrimento acabou.
Porém, restaram-me quatro filhos lindos, trabalhadores, simplesmente maravilhosos. Foi o presente, como recompensa que Deus me deu. O que seria de minha se não fossem eles quando meu projeto de família feliz se rasgou.
Chegamos de viagem, descarregamos os carros, fui direto para o tanque. Lavei toda a roupa dele, e passei no capricho.
Coloquei em uma mala, chamei-o e disse:
-- Agora chega!
Depois do que me fez passar, não te quero mais aqui. De preferência nem neste Estado. Quero te ver longe do mapa do Brasil, se for possível.
Comportando-se como se nada tivesse acontecido, ele respondeu secamente:
-- Daqui não saio, a casa é minha e tudo aqui me pertence, que saia você!
-- Eu não vou sair. Vim para São Paulo em sua companhia, atrás de um lar prometido, com a cabeça cheia de sonhos! E você me ofereceu um pesadelo! Fui sua empregada domestica, saco de pancadas, onde descarregou seu tédio, sem férias, sem salário, carinho e amor. Eu não vivi, só vegetei!
A briga estava pronta, jamais o canalha iria perder a chance de tentar me espancar. Fui firme e o coloquei pra fora, com mala e tudo. Depois que estava do lado de fora, ainda me atacou pelas costas e me feriu gravemente que doeu mais do que qualquer ferimento. Feriu também o meu orgulho e fui desafiada a me sustentar sozinha.
Ele pegou um caminhão e levou tudo que coube, deixando a casa praticamente vazia. Fiquei na mais completa miséria, e com filho ainda pequeno para terminar de criar. Ele acrescentou que se eu o procurasse para pedir qualquer coisa, que me mataria.
De alma ferida, e cara quebrada, literalmente, disse pra mim mesma: - “Vou me sustentar sozinha! Tenho fé em Deus!”
No dia seguinte passei meu batom, prendi meus cabelos, coloquei um gelo nos hematomas e nos olhos para disfarçar o inchaço e fui à luta. Abri meu barzinho e o sorriso como sempre e fui atender meus fregueses. O único meio de vida que tinha a mão. Não demorou muitos dias, mamãe soube que meu marido tinha me abandonado e ficou furiosa e deu ordens para que eu o perdoasse e pedisse perdão para que ele voltasse. Só quando soube que ele fora morar no sítio com um rapaz, admitiu que o caso não tinha perdão e que nossa separação estava consumada.
Então mamãe ordenou que eu fechasse o bar, porque para ela, mulher sem marido que encosta o umbigo no balcão é vagabunda. Eu não sabia fazer mais nada, sem estudo, sem emprego, não sabia o que fazer. Quando comentei com filho que mamãe me deu ordem para fechar o bar ele não concordou e disse: que se eu fechasse o bar por causa dela ele iria embora de casa. Irritado, que disse que a avó era velha e preconceituosa, mas que eu ainda era jovem e não fazia sentido respeitar a mãe nesta idade e nestas condições. Agindo assim, segundo ele, eu estaria me comportando como se fosse mais velha do que ela.
Então, fiquei na linha de fogo entre meu filho e minha mãe; tanto mamãe brigou comigo que acabei por fechar o bar. Confiei no amor e carinho que tanto dediquei a meu filho e preferi respeitar minha mãe. Mas, para minha surpresa meu filho cumpriu o prometido e saiu de casa: lá se ia meu bebê embora, perambulando pelo mundo.
Inscrevi-me na frente de trabalho do governo e fui chamada para trabalhar, ganhando um salário mínimo e uma cesta básica, o mesmo desafio que foi imposto a tantos brasileiros, sobreviver com um salário, fui carpir ruas e escolas.
Ainda por cima ouvia as piadas dos vizinhos que não sabiam nada de minha vida, mas se sentiam no direito de me discriminar. Voltei a estudar à noite no MOVA (Movimento de Alfabetização de Adultos), estudando e trabalhando, completei o primário e depois o fundamental, por eliminação de matéria.
Logo em seguida, fiz um curso de auxiliar de enfermagem com bolsa oferecida pelo Ministério da Saúde. Foi então que troquei a enxada pela seringa. A coisa começou a andar e eu estava em dia com o carnê das casas Bahia, onde tinha comprado os móveis que havia perdido na separação e tudo ia bem.
Meu filho veio fazer uma visita e ficou, voltou para casa para completar minha felicidade e então me disse: - mamãe você é minha heroína eu é que estava errado, a senhora e a vovó não estavam 100% erradas; eu sofri muito por ai. Morando novamente com meu filho, a vida dava sinais de melhora, a felicidade rondava meu lar; na geladeira tinha mais do que água gelada , no armário mais do que feijão .Eu continuava mandando currículos para clinicas e hospitais, sempre em busca de um emprego melhor; Cheia de esperanças, tinha certeza de que qualquer hora a vida iria sorrir para mim. E esperava o tempo todo uma boa noticia porque eu sou uma profissional competente e em cada dose de remédio administrado, coloco outra dose de amor. Sou a enfermeira que conta piadas, histórias... Enquanto o paciente não mostrar o sorriso, não saio de seu leito.
Um dia o telefone tocou. Eu atendi e uma moça disse que era de uma clinica de idosos e que estava precisando de uma enfermeira. Tinha em mãos um currículo meu e gostaria de saber se eu ainda estava interessada no serviço. Confirmei que sim e então marcamos a entrevista para o dia seguinte às duas horas da tarde. Fiquei feliz, pois tinha boa chance de conseguir aquele emprego.
À noite quase nem dormi de tanta ansiedade. Logo pela manhã levantei-me cedo para cuidar dos afazeres da casa e adiantei tudo lavando roupa e passando, enquanto ficava na certeza de que no dia seguinte iria começar no emprego novo e ganhando bem mais que no antigo, no qual nem registrada era.
Almocei na companhia do meu filho e, como toda mãe, passei as recomendações do tipo: não ande com más companhias e quando sair não deixe a luz acesa, etc. Mas fui interrompida com graça e humor: mamãe olhe para mim, eu já cresci, sou um homem e já sei cuidar de mim sozinho. Como se filho crescesse para mãe, ele não sabe que filhos nunca são grandes o suficiente o caçula então, nunca vai deixar de ser um bebê.
Estava na sala dando os últimos retoques na maquiagem, prendendo os cabelos como manda a ética da enfermagem, quando o cachorro que atendia pelo nome de Dumbo começou a latir, avisando que ali chegava uma pessoa estranha e, pelos latidos insistentes, havia alguém se aproximando.
Foi quando pedi para meu filho que atendesse o portão e dissesse que mamãe não pode atender. Que anotasse o recado que mais tarde veria do que se tratava.
Ele foi até o portão para atender a visita, mas logo que chegou do lado de fora gritou desesperado:
- Mamãe, mamãe corre aqui e me ajuda!
- Filho o que esta acontecendo pelo amor de Deus?, respondi assustada.
- Papai chegou e está caindo pela escada abaixo!
Ao sair, me deparei com meu ex-marido, que se encontrava meio sentado e meio de joelho, com uma das mãos no ombro do filho, que estava assustado e sem reação. Quase não o reconheci, pois estava pálido, magro e a única palavra dita foi: - “me ajude!”.
Meu filho pediu que o ajudasse a levar o pai para dentro.
Claro! Respondi prontamente já pegando pela cintura o doente, que quase não se agüentava em pé e mal falava. Ali estava meu ex-marido muito mal de saúde, voz baixa e ofegante, pedindo socorro.
Eu o amparei até o sofá e servi um copo com água. Ele mal conseguia engolir e de repente parece que engasgou. Quando tossiu forte, percebi um sangramento no pano que trazia na mão.
Ali diante de mim, justo na hora marcada da entrevista de emprego, fiquei desesperada e sem saber o que fazer dava um passo à frente e outro para trás, ao mesmo tempo em que remoia meus pensamentos: – “Meu deus me ajude, me ilumine nessa hora!. E o juramento perante a bíblia que fiz prometendo cuidar de todos os seres humanos? E meu filho pedindo mamãe ajude o que devo fazer com papai?. Estou o perdida, não tenho saída”.
Finalmente respondi:
--Vou cuidar do seu pai! Fique tranqüilo, chame uma ambulância que tudo vai dar certo. Vinte minutos mais tarde estávamos no hospital mais próximo, os outros filhos vieram também, parecia que estavam se certificando que o pai estava tendo minha atenção. Antes que dissessem qualquer coisa eu os garanti que faria o possível para que o pai deles melhorasse e que jamais o abandonaria nessa hora.
Já internado, medicado e mais tranqüilo, já passado o susto aproximei-me dele para conversar um pouco e mostrar bandeira branca, afinal sou de paz. Ele me disse:
--Deixe-me ficar perto de meus filhos nesses últimos dias de vida.
Eu interrompi dizendo:
--Calma você vai ficar bom tenha fé em Deus.
Ele então admitiu:
-- Contraí o vírus HIV e estou morrendo.
Pela minha experiência em hospitais eu já estava desconfiada.
Daí por diante foi só correria de hospital em hospital sem sucesso. Era cada dia pior, a luta era em vão, pois os remédios não faziam efeito e a coisa estava ficando feia.
Passei trinta dias sobre o leito dele. Ficava sempre de pé aos pés de sua cama, olhando para ele o tempo todo e por mais que olhasse não o reconheci como esposo que foi durante vinte anos.
Não sobrou nada, nenhuma história engraçada que pudéssemos contar para quebrar aquele clima triste de hospital. A enfermeira palhaça perdeu o rebolado; Ali de pé estava uma profissional trabalhando e cuidando dos aparelhos, medicação e bem estar do paciente. Meus amigos de profissão todos trabalhando e eu ali cuidando de um único paciente: o meu ex-marido. O doce prazer da profissão se tornou amargo como fel. Ali de pé existia uma pessoa com dois corações.
Um coração de profissional e outro cheio de ira e magoa; Com a revolta à flor da pele, louca para dizer umas verdades. Em um dado momento, parece que ele deduziu meus pensamentos e evitou olhar-me nos olhos e virou o rosto. Neste momento fiz questão de dizer-lhe que eu era uma profissional competente e podia confiar em mim, que jamais lhe queria mal, então acariciei seus cabelos até que ele se mostrasse calmo e tranqüilo. Mesmo assim, discordei de Deus e achei injusto que ele descansasse sem pagar o que fez comigo. Ainda o colocou em minhas mãos para testar meu coração. Eu já estava cansada de lutar ao lado dele dia e noite até que chegou alguém e disse:
- Pode descansar que agora eu fico com ele! Exausta e abatida fui para minha casa, onde naquela mesma noite soube que ele veio a falecer.
Eu e meus filhos cuidamos de todos os preparativos para o velório. Curiosamente, tinha tanta gente que parecia até enterro de prefeito. As “fifis”(fofoqueiras) também estavam lá com suas línguas afiadas e perigosas, sempre cochichando pelos cantos e nem se deram conta de que eu também tinha amigos lá, que as ouviam e me contaram tudo.
- Olha a cara dela! depois que morre é que se dá valor! Abandonou o coitadinho sem motivo, agora se faz de viúva triste.
O “amigão” dele também estava lá. Cada olhada que me dava valia por uma flechada. Eu coloquei óculos bem escuros porque se pudessem ler os meus olhos fugiriam dali, pois expressavam o ódio que sentia de tais “amigos” e pensava comigo mesma: - aqui no velório é lugar de respeito, mas eu dava tudo para te encontrar em um ringue. E para eles eu dizia em pensamento:
- Vocês já compraram seu passaporte para o inferno?
Embaixo daqueles óculos nenhuma lagrima caiu, e continuava pensando: -Defunto de sorte! Se não fossem esses quatro presentes (os filhos) que me deu, você estava perdido. Nada daquelas cenas tristes me tocaram, a não ser o choro e desespero de meus filhos, por isso abracei-os e beijei-os, mas as palavras de consolo sumiram da minha boca.
Tive medo de me olhar no espelho e ver do outro lado uma estátua ou um monstro. Mulher de pedra é o que eu era naquele momento. Meu sentimento foi mais por causa do sofrimento de meus filhos.
Sofri porque eu não tinha sentimentos de espécie alguma por aquele homem!

Vida conjugal e o segredo

O sorriso dos meus filhos era tudo o que eu precisava para viver, e estes sorrisos estavam ficando cada vez mais raros. Eu transformava-me em mil para arrancar tais sorrisos. Vestia-me de bruxa ou palhaça, fazia show como cantora, dançava com gestos engraçados, até a hora que o pai chegava. . Então, todas as crianças corriam para a cama, fugindo dele, que cada dia ficava mais violento. As brigas eram constantes e até chegavam a agressões físicas; eu intervinha e apanhava também.
A desculpa era a maldita pinga, agora com pinga em casa, nossa vida estava um verdadeiro inferno; havia brigas todos os dias e cada dia maiores.
Certa vez, fomos convidados para uma festinha de aniversário de uma criança, filha de um amigo dele. Então ordenou:
- Arrume os nossos filhos que á noite, quando eu chegar do serviço, vamos neste aniversário.
As crianças ficaram muito felizes, porque íamos a uma festa. Com certeza terá bolo, doces e outras delícias. Todos ficaram empolgados com a festa que seria na casa de seu melhor amigo..
Todos aguardávamos ansiosos a chegada do meu marido para irmos à festa. Quando ele chegou, estávamos todos arrumadinhos e cheirosos para sairmos.
Chegamos à casa do amigo e as crianças felizes corriam brincando pela casa e comendo salgadinhos. A casa estava linda, enfeitada, com bexigas e cartazes, a mesa coberta com papel crepom e o bolo sobre ela era o destaque.
Fiquei sentada com meu bebê mais novo no colo ali no canto da cozinha aguardando a hora de partir o bolo. As crianças se divertiram a valer com os amigos, quando percebi que meu marido e o amigo se afastaram do local onde estavam conversando. Então, me levantei com o bebê no colo e sai, assim devagarzinho, como se tivesse conhecendo a casa. Olhava em um quarto em outro, na sala e nada dos dois. E pensei intrigada para onde eles teriam ido para sumirem de reprente?
Havia do lado de fora um lugar como se fosse uma adega,, onde ficavam as bebidas mais fortes. Fui me aproximando lentamente, sem que eles percebessem. Lá dentro a luz acesa contrastava com a escuridão do lado de fora, de forma que eles não me viam. Tive o desprazer de ver uma horrível cena. Meu marido dava um arrocho no amigo, coisa que nem eu como esposa nunca tinha ganhado. Não daquele jeito tão despudorado!
Fiquei louca de ciúme e não aceitei a idéia. Desnorteada, confusa, enlouquecida pelo que vi, em silêncio juntei meus filhos e saí da festa. Mas não fui para casa. Segui para a casa de uma amiga, onde passei aquela noite e não comentei o assunto com ninguém, mas fiquei muito magoada com o que tinha visto.
No outro dia, cheguei em casa por volta de meio dia e já o encontrei completamente embriagado e sem almoço. Ele nunca havia passado a hora das refeições, pois sempre cumpri com minhas obrigações de dona-de-casa, conforme mamãe havia ensinando. Mas naquele dia estava me lixando para hora do almoço ou jantar. Não sei se desconfiou que eu tinha visto a cena da noite anterior. Nem eu, nem ele falamos sobre o assunto. Meus olhos pareciam
pegar fogo, de tanta raiva e passei a encará-lo de frente, sempre o olhando diretamente nos olhos, ao contrário do que acontecia até então, quando me dirigia a ele sempre cabisbaixa, com ar de obediência. Escondendo-se atrás da bebida, ele fingindo embriaguez, foi se deitar. Deitei-me ao lado dele, mas não consegui pegar no sono. Minha raiva subiu à cabeça, fiquei enlouquecida de ódio, peguei um abajur no criado-mudo e joguei na cabeça dele, ferindo-o com um corte profundo na testa.
Quando me perguntaram por que havia batido nele, respondi, que era por toda as surras que havia levado dele. Que agora chegou a minha vez... Chamei-o pra briga: - Eu é que vou te dar um coro..., disse eu. Foi então que ele partiu pra cima de mim e nós lutamos, rolamos no chão e quebramos tudo ali. Meu filho mais velho entrou na briga, mesmo sem entender nada do que estava acontecendo. A polícia foi chamada pelos vizinhos, devido aos gritos de desespero das crianças, que pediam socorro. A viatura chegou e fomos levados para a delegacia. E lá permanecemos calados e só o meu filho falou, relatando a briga. Depois de ouvir a criança, o delegado nos deu conselhos e acabou nos liberando.
Daí por diante, meu marido ficou com medo de dormir comigo e ser agredido de novo. Passou a se ausentar de casa, ficando até três dias fora. Sempre que vinha trazia folha de cheque para as despesas e sumia novamente. Nunca perguntei onde andava, mas depois de certo tempo achei que não era certo aquilo. Não era isso que havia jurado diante do padre no dia de nosso casamento. Reclamei meus direitos de esposa. Ele se mostrou louco de ódio, agrediu-me mais uma vez e foi embora. Deixei pra lá e nunca mais falei no assunto.
Ficamos nessa vida por cerca de dez anos, conversando apenas o mínimo necessário. Até que um dia, ele reclamou que eu e as crianças dávamos muito prejuízo, pois comíamos demais. Se não cortássemos despesas, deixaria que passássemos fome, para ficarmos espertos. Preferi ficar quieta, mas meu filho mais velho não agüentou a provocação. Jogou o prato de comida na cara do pai e lhe disse poucas e boas. Foi então que investiu contra meu filho e eu parti pra briga. Todos apanhamos e todos batemos e ao final ele foi embora. A violência física, psicológica e moral, também chegou à forma sexual, pois, como me recusava a ter relações desde que presenciei sua homosexualidade, em suas idas e vindas, algumas vezes violentou-me e agrediu-me com fúria, talvez como uma forma de me pressionar a contar o que tinha descoberto sobre seu caso com o “amigo”.
A situação ficou cada dia pior e percebi que estava me tornando uma pessoa muito triste e sem perspectiva de vida. O sonho de um lar feliz havia caído de vez por terra.
Passado esse tempo e vendo meus filhos mais velhos já casados, dei-me conta de que lá se iam uns 19 anos de casamento e já tínhamos dois lindos netos, e que apenas continuávamos mantendo a aparência de marido e mulher perante a sociedade, embora há muito tempo não houvesse qualquer contato físico.
Ninguém suspeitava de nada. Havia mais de 12 anos que entre nós não havia troca de carícias ou mesmo uma palavra de amor.
Eu vivia pros meus filhos e ele vivia pros “amigos”. De vez em quando a gente saia junto como um casal normal e freqüentávamos a sociedade como marido e mulher. Nem eu e nem ele jamais encaramos o assunto de frente. Os filhos nunca imaginaram que papai e mamãe só eram “bons amigos” e que entre quatro paredes não acontecia nada; apenas dormíamos.
Acabei acostumando com essa situação. Assim, as conversas eram apenas a respeito dos filhos e problemas domésticos. Eu ia levando a vida e a vida me levando... Um dia ganhamos uma afilhada de casamento no estado de Minas Gerais. A cerimônia estava marcada para 3 de janeiro, então combinamos que passaríamos o Natal e Ano Novo em Minas e ficaríamos no sítio ou na casa da cidade, pois tínhamos duas propriedades lá, mais ou menos a uma distância de 3 quilômetros uma da outra, além de ter como opção casas de nossos familiares. Eu concordei e sugeri que fôssemos com os dois carros, assim levaríamos a família toda, pois se tratava de um período de festas e assim ficaríamos todos juntos, inclusive com genros, noras e netos.
Partimos de viagem com os carros cheios e o trajeto foi uma maravilha. Chegamos todos bem e felizes. Era Natal e o almoço seria na casa de minha mãe. Meu marido não quis participar, alegando que preferia ficar no sítio onde é mais fresco e tranqüilo, pois precisava descansar do agito de São Paulo. Que não nos preocupássemos que ele ia ficar bem e aproveitaria para dormir um sono na rede mais tarde.
Respondi que tudo bem: - é direito seu querido marido! E em tom irônico dei-lhe um beijo no rosto. Comuniquei que iria pegar o carro grande porque assim iríamos em um carro só. Ele não se opôs e fomos todos para o almoço em casa de minha mãe.
Por volta de 2 horas da tarde, um dos bebês não se sentiu bem, devido ao calor intenso que faz naquela região, sempre cerca de 40 graus. De repente, alguém deu a idéia de voltar para o sítio, onde, devido às plantações e a um rio, havia mais ventilação, tornando a casa mais fresca, com clima mais agradável para as crianças.
Decidimos almoçar e voltar o mais rápido possível e assim o fizemos. Ele não estava esperando por nosso retorno tão cedo, uma vez que pensava que ficaríamos por lá o dia todo. Chegamos de surpresa e flagramos o que de mais vergonhoso alguém pode presenciar Ali na frente da família inteira, estava a pior cena; a mais chocante para uma esposa! O pai de meus filhos, o sogro de meu genro e nora; o avôs de meus netos na maior baixaria com um rapaz, beijando-se na boca e agarrando-se sem nenhum pudor. Meu mundo caiu e a cara também, de tanta vergonha, pois não esperava tamanha safadeza na frente da família inteira.
Transtornado, meu filho teve um choque emocional e entrou em crise nervosa. Quebrou tudo por ali e depois desmaiou. Foi levado para o hospital, onde ficou completamente sem sentido e dopado por três dias e só depois de receber apoio psicológico foi se recuperando aos poucos. Meu filho mais novo calou-se e nunca disse sequer uma palavra a respeito, mas as conseqüências do trauma apareceram mais tarde.
Apesar do ocorrido, no dia e na hora marcada, eu estava na igreja para cumprir o compromisso de madrinha da noiva, que motivou nossa viagem a Minas. Pouco depois de mim, ele também chegou e se pôs a meu lado, sem trocar nem mesmo um olhar. Eu estava fantasiada de madame e esposa, com um largo sorriso no rosto, que disfarçava toda aquela situação constrangedora, ao mesmo tempo em que traduzia minha satisfação de ser testemunha de uma linda cerimônia de casamento, marcada com uma grande festa, da qual a cidade inteira participou, lotando a igreja e homenageando os noivos com muitas palmas.
Uma cena inesquecível que me fez lembrar a ironia de ali testemunhar uma nova vida conjugal, exatamente no momento em que a minha chegava ao fim de forma tão taumatica.