quarta-feira, 28 de abril de 2010

...A observação...

Tinha os olhos negros, um pouco inchados, como se tivesse chorado ou talvez acabado de acordar.
O rosto era redondo, com um bigode preto muito bem feito, que se destacava em sua pele clara> Unhas limpas e bem lixadas, bem cuidadas, trajava uma camisa azul clara por dentro da calça jeans com um cinto de couro marrom e sapatos muito bem engraxados. Tinha uma postura de um “doutor”.
Eu me senti muito inferior a ele e pensei com meus botões: Que homem fino, educado e bonito. Se eu tivesse estudado e fosse uma pessoa educada, teria coragem de puxar um assunto que daria um bom bate-papo, assim como política, ou futebol talvez... Mas aqui nem rádio ouço. O que poderia falar com este homem com toda essa educação que ele tem?
Então pensei: Responderei o que me perguntar. Deve ser um viajante, desses que passam e nunca mais voltam, não deixam rastros, e nem saudades... Apenas vagas lembranças.
Porém no outro dia, no mesmo horário o carro encostou ali outra vez e repetiu a mesma cena... A bebida e os mesmos gestos. Deu para notar que ele era de pouca conversa.
Mais eu estava morrendo de curiosidade para saber mais sobre sua vida. Na verdade, eu queria saber era se voltaria sempre aqui no meu bar, pois tinha certeza que poderia aprender muita coisa com ele como, por exemplo, falar corretamente. Ele falava palavras que já estavam em desuso, sempre com aquele sotaque puxado de Minas Gerais.
Apesar de não entender o sentido de muitas palavras, é sempre muito bom ouvir alguém educado conversando, só que não sabia como começar a conversa, mesmo sendo muito comunicativa.
Em um momento tomei coragem e lhe perguntei:
-- Qual o seu nome?
-- De onde veio?
-- Onde mora?
Tudo de uma só vez. Ele foi respondendo:
-- Meu nome é Pereira, estou vindo do serviço, e estou passando por aqui porque a estrada está em reforma e desviou-me do caminho normal.
-- Moro aqui mesmo em Ribeirão Pires, não muito longe daqui.
-- Que legal! Disse eu.
-- Espero tê-lo como freguês por um bom tempo! Tomara que estas obras durem bastante, é muito bom receber um freguês tão importante em meu humilde barzinho.
Ele respondeu:
̶ ̶ Obrigado, mas sou um trabalhador comum, como qualquer outro.
Eu perguntei:
̶ ̶ Seus pais são vivos?
Ele me respondeu que não. Seu pai havia falecido em um acidente e ele sentia muito a sua falta, pois havia sido ele que o tinha criado praticamente sozinho.
-- Ele me ensinou tudo o que sei! Tudo o que aprendi nessa vida devo a ele!
-- Por exemplo? Questionei.
-- Ele me ensinou como lidar com as mulheres. Ensinou-me que todas as mulheres merecem respeito e carinho; desde a mais humilde, até a mais importante. Devem ser tratadas como damas! Papai me disse para amar todas.
Fiquei na minha, me calei, porque não entendi o sentido do “amar todas...” Tratei logo de mudar de assunto e perguntei:
-- Você tem filhos, esposa, como todo mundo, ou é um boêmio?
Ele respondeu firme com segurança:
-- Tenho esposa e filhos, que amo muito, eles são minha vida!
Eu continuei perguntando, já que era eu quem mais falava:
-- Aonde você trabalha?
Ele me respondeu:
-- Trabalho em uma firma muito boa, estou lá há muito tempo e sou chefe de seção. Foi meu primeiro emprego e pretendo me aposentar lá.
Com todos esses benefícios, não entendia porque seus olhos tinham sempre uma lágrima pronta para cair e que ele sempre disfarçava esfregando as mãos uma na outra, ou olhava em direção ao horizonte como se procurasse a ajuda do vento para secar seus olhos.
Quando eu olhei firme nos seus olhos, parece que teve medo que eu indagasse o porquê de eles anunciarem uma profunda tristeza e tratou logo de mudar de assunto.
Disse que iria sair vereador nas próximas eleições e que contaria com o meu voto.
Respondi que o meu voto seria dele, e que fazia questão de apoiá-lo no que precisasse, e autorizei que colocasse faixas e cartazes aqui, e prometi convencer meus fregueses a votar nele.Tive a idéia de que meus filhos trabalhassem no dia das eleições como boca-de-urna.
Em troca, depois que fosse eleito, pedi que não se esquecesse de nossas ruas que viviam cheias de mato. Cuidaria de nosso bairro, trazendo melhorias. Ele dizia que, apesar do bairro ser tão perto do centro, lhe lembrava o sertão. Já havia al, uma boa e saudável amizade.
No dia seguinte, ele apareceu com os acessórios que os políticos usam em uma campanha eleitoral. Já se mostrava mais falante e dizia com entusiasmo o que pretendia fazer depois de eleito.
Foi no meio de uma dessas conversas, que eu atravessei o assunto e perguntei:
-- Por que há tristeza nos seus olhos, que por mais que disfarce ela aparece sempre?
Surpreso com a pergunta, respondeu evasivamente:
-- Você é muito observadora! Ninguém nunca prestou atenção em meu jeito de olhar. Mas, não se preocupe, não é nada! Apenas uns probleminhas de rotina... E continuou:
-- São uns trotes que estão passando por telefone para minha esposa e meus filhos, falando besteiras, e isso está atrapalhando um pouco a minha vida conjugal.
-- Você desconfia de alguém? – Perguntei
̶ ̶ Não, não sei quem lucraria com o fim do meu casamento. Estão pegando pesado e minha esposa está intrigada com esta situação. Anda irritada, nervosa; todo dia é a mesma coisa e tenho até medo de chegar em casa. Se minha esposa não for madura o suficiente para passar por cima disto, estou perdido!
Aconselhei-o a conversar bastante com ela, ressaltando que os dois juntos superariam isso e que ninguém é capaz de separar o que Deus uniu.
Foi então que comentou:
-- Que Deus abençoe tuas palavras!
-- Vou rezar por você e pedir à Nossa Senhora Aparecida que cubra seu lar com o manto sagrado, que não deixe a tentação do mal perturbar vocês. – disse eu olhando em seus olhos.
-- Obrigado pelas suas palavras de conforto. Ainda não tive coragem de comentar este assunto com ninguém, você é a primeira pessoa com quem me senti à vontade para falar da minha vida pessoal.
Houve um breve silêncio, em que ele deixou a preocupação transparecer e novamente seus olhos ficaram cheios de lágrimas e continuamos o trabalho.
-- Coloque esta faixa aqui. – pediu-me.
-- Acho que vai ficar melhor lá. – Respondi, apontando para outro canto.
-- Tem razão! Chama mais atenção porque fica na porta de entrada.
-- Mais tarde quando meus fregueses chegarem, vou conversar com eles, falar de você e convencê-los a lhe dar um voto.Tenha fé em Deus que vai dar tudo certo e você vai ser eleito; ficará em paz com sua família e teremos alguém na prefeitura lutando pelos moradores do nosso bairro.
-- Com certeza! – Disse ele
Assim eu fiz! Trabalhei, conversei com os vizinhos, amigos, parentes, meus filhos mais velhos e meu marido.
Os dias passaram rápido e nós cheios de esperança, na expectativa do dia das eleições...
Até que enfim chegou a tão esperada data! Fizemos tudo certo, conforme combinamos.
Certa de que ele iria vencer as eleições, no dia seguinte, corri para pegar o jornal para procurar o resultado da votação. Mas, para minha surpresa, o nome dele não constava dentre os eleitos.
Fiquei muito chateada. Gostaria que ele estivesse perto para que eu desse uma palavra de consolo; lhe dizer que daqui a quatro anos teria uma nova eleição e que o importante era lutar sempre e nunca desistir.
Ele deu uma sumida por uns dias, acho que sentiu a perda, mas o fato era que não havia mais nada a fazer. O jeito era corrigir o que erramos e fazer melhor nas próximas eleições. Mas, infelizmente não estava conosco, para juntos conversarmos sobre o assunto
Eu continuei minha vida de sempre. Passado um tempo, ele apareceu no bar, para agradecer o apoio. Eu aceitei os agradecimentos e pude perceber o quanto ele estava chateado por ter perdido as eleições. Preferi deixar este assunto de lado, afinal tínhamos tempo suficiente para outro dia talvez, falar sobre política. No momento falar sobre perdas não ia nos levar a nada.
Até que ele me perguntou:
-- E você? Fale -me um pouco sobre você... Pelo seu sotaque é mineira, não é?
-- Eu? Eu sou sim. – confirmei.
-- Conte-me alguma coisa sobre você; fale-me sobre a sua vida.
-- Na minha vida não tem nada de especial, ou importante. – comentei.
Porém ele insistiu, querendo saber mais um pouco sobre mim, de onde eu vinha, de que lugar de Minas eu era... Talvez ele conhecesse bem, pois era uma pessoa que conhecia uma boa parte do Brasil.

...A Balconista...

Durante cerca de dez anos, eu dividia o meu tempo entre as funções doméstica e a de proprietária de um pequeno comércio em Ribeirão Pires, que era apenas uma porta aberta para vender umas poucas mercadorias. A mais vendida era a pinga, procurada pelos trabalhadores que por ali passavam no fim da tarde, ou na hora do almoço; algumas balas, doces e salgadinhos para as crianças que seguiam a caminho da escola.

O local era tão pequeno e tranquilo que eu trançava meus barbantes com uma agulha de croché, enquanto tomava conta do pequeno comércio. Meu marido trabalhava em uma empresa para garantir o sustento da casa e os estudos de nossos quatro filhos.

Estes, que cresciam muito rápido, já estavam procurando seguir seus caminhos. Os dois mais velhos cursavam o colegial e os mais novos, o primário.

Às tardes, meu marido chegava da empresa, descansava um pouco e depois tomava conta do bar, enquanto eu preparava o jantar para que meus filhos pudessem ir à escola bem alimentados.

Eu era uma jovem-senhora, cabocla, de cabelos longos e negros, muito sorridente e bem-humorada; estava sempre cantando, nunca esquecia os “obrigados” e “volte sempre” a cada freguês, e com este mesmo carinho me dedicava a meus filhos e meu marido.

Eu era um pouco rude na leitura, não havia completado nem o primário, pois quando criança não tive chance de estudar.Às vezes contava com a ajuda dos filhos ou dos próprios fregueses para voltar o troco. E assim ia levando a vida com honestidade.

Parecendo feliz da vida... (ou talvez disfarçasse muito bem minhas tristezas) e vivia sempre cantando. Nada era capaz de tirar aquele sorriso maroto do meu rosto.

Era acostumada a atender os vizinhos e amigos da região e já sendo conhecida por todos ali. Na hora das crianças passarem rumo à escola, sempre ficava do lado de fora para ganhar um beijo delas.

Eu oferecia uma balinha para aquelas que não podiam comprar e todas me chamavam de “tia”. Algumas faziam questão de mostrar os cadernos para que eu visse como eram caprichosas e como sabiam direitinho a lição que era dada pela professora.

Tinha sempre um conselho na ponta da língua para os que tiravam notas vermelhas e esses, quando melhoravam seu desempenho, vinham correndo em minha direção para ganhar um elogio e uma balinha.

Em uma tarde de verão, o sol brilhava - dia raro nesta região, que sempre nevoava nos fins de tarde. Antes do por do sol, apareceu um freguês diferente, no seu próprio carro, bem trajado, desceu com passos lentos, olhando de um lado para outro, como se estivesse sendo seguido ou procurasse alguém.

Entrou, cumprimentou-me com muita educação, pediu-me que lhe servisse uma dose de vodka com gelo. Fiquei surpresa, pois até aquele momento só havia servido umas doses de pinga pura ou no máximo com limão. Por sorte, havia uma garrafa escondida atrás das outras.

Como era a bebida preferida de meu marido, tratei logo de pegar o gelo e servir o freguês. Ele agradeceu e ficou de pé meio debruçado no balcão, olhando direto para aquele copo entre os dedos, acariciando-o com o polegar, como se estivesse pensando em alguma coisa muito importante.

Talvez um grande problema, daqueles que fazem com que apareça aquela “ruguinha” a mais na testa.

De vez em quando ele colocava o fundo do copo na palma da mão. Acho que sentia a temperatura da bebida conforme o gelo ia derretendo... E ele parado ali na minha frente daquele jeito. Não tive reação para interromper o silêncio; não havia mais ninguém, no estabelecimento, apenas eu e ele.

Eu estava de pé do outro lado do balcão com as mãos para trás, esperando a próxima ordem do freguês.

Passaram-se uns minutos e ele permanecia na mesma posição. Depois acabou tomando a bebida, agradeceu, despediu-se, entrou em seu carro e se foi.

Maria de Lourdes Meireles

Eu nasci em Minas Gerais, no ano de 1961. Vim para São Paulo em 1976. Venho de uma família humilde, tive na adolescência a obrigação de me casar com um homem desconhecido e durante vinte anos fui prisioneira e vitima deste homem que acabou me abandonando e revelando sua verdadeira preferência sexual. Mais tarde conheci o amor, vivi cinco anos perdidamente apaixonada e perdi este amor.

Hoje, danço, canto e escrevo em nome do amor que acredito em eterno, que no além o encontrará e será feliz para sempre. Escrevi este livro em resposta a todas as pessoas que tentaram contra minha felicidade. Tenho o prazer de dizer-lhes que estou muito feliz!

Vou contar um pouco de mim...

Já vivi muita coisa,já passei por muita coisa...
Por isso esse Blog...Para,quem sabe...,se alguem ler...se identificar...ver como tudo na vida tem solução...que tudo passa...
São situações reais,coisas que aconteceram na minha vida e vou compartilhar...

(direitos autorais registrado)