segunda-feira, 3 de maio de 2010

A chegada a São Paulo

Logo após a cerimônia religiosa, pegamos as malas e seguimos viagem até a cidade para embarcar para São Paulo.

Entramos no ônibus, tão confortável e macio que me senti em minha cama. Com o cansaço do dia agitado, dormi a viagem toda.

Logo pela manhã, chegamos à rodoviária D. Pedro II. Meu marido me chamou, tocou com as mãos sem meu rosto, até que eu acordei, dei uma espreguiçada gostosa, arrumei meus cabelos e perguntei:

- Porque me chamou?

Ele disse:

- Chegamos a São Paulo.

- É mesmo? – Eu perguntei.

Olhei pelo vidro do ônibus, avistei uma multidão correndo de um lado para o outro, pareciam formigas com as folhas nas cabeças, todos com malas, sacolas, puxando crianças pelas mãos.

Levei um grande susto e perguntei:

- Porque eles estão correndo deste jeito?

- Isto é normal. Cidade grande é assim mesmo.

Assustei-me, encolhi-me no canto do ônibus e pensei: Acho que aqui em São Paulo está acontecendo alguma coisa.

- Anda, vamos – Disse ele.

- Não, eles estão correndo com coisas nas mãos, parecem que estão fugindo de São Paulo, vamos voltar para trás – Eu respondi.

- Não tem ninguém correndo aqui, todos andam assim mesmo. Vem, vamos pra casa.

Então, me levantei devagar olhando para os lados, desci do ônibus e segurei na camisa dele com medo que as pessoas me atropelassem.

Ele ia caminhando na frente e eu atrás, imaginei ser um dia santo e que talvez por ali perto estivesse acontecendo uma grande festa.

Mas, percebi que as pessoas andavam em direção contrária; elas seguiam em todas as direções. Fiquei andando agarrada nele, e olhando as pessoas, tinha gente bem vestida, outros pareciam estar de uniforme, com blusas e calças iguais. Era realmente muito curioso, diferente de onde nasci e cresci.

Meu marido foi em direção a outro ônibus e eu perguntei:

- Pra onde vamos? Você me disse que havíamos chegado.

- Chegamos a São Paulo, mas para chegarmos em casa falta muito.

Entramos no ônibus em direção a São Bernardo do Campo.

Não entendia porque havíamos chegado em São Paulo e agora estávamos indo para outro lugar. Ele me explicou que tudo ali faz parte de São Paulo.

Quanto mais o ônibus andava, mais assustada eu ficava com o tamanho da cidade.

Imaginei que nunca mais iria encontrar o caminho de volta para a casa de meus pais, cada rua era tão parecida com a outra que pensei que estávamos andando em círculos. Todos os rostos eram diferentes, não havia um parecido com algum que eu conhecesse.

Cerca de duas horas depois, ele deu o sinal para o motorista e finalmente descemos daquele ônibus, que já não tinha o mesmo conforto do outro. Ao contrário das outras almofadadas, agora eram de plástico duro e vermelho.

Caminhamos um pouquinho, ele pegou as chaves no bolso e abriu a porta de um barraco de tábua e disse:

- Este é o nosso barraco.

Eram dois cômodos, apenas quarto e cozinha. No quarto havia uma cama de casal, uma penteadeira pequena e um guarda-roupa.

Na cozinha o fogão, um armário e uma pequena mesa com quatro cadeiras, tudo bem vermelho.

Ele disse:

- Eis a sua casa!

Não sei por que não aceitei bem a idéia e questionei:

- Porque as paredes são de tábua? Nunca vi isto lá em Minas.

Ele respondeu:

- Aqui em São Paulo, só rico tem casa de cimento, o resto da população é barracos de tábua.

E acrescentou:

-Agora vou tomar um banho para descansar, vem também.

- Claro, vou pegar a toalha e as roupas. – Disse eu.

As dele já estavam em cima de seu braço. Parado na minha frente, ele ficou me aguardando por uns minutos, até que eu dissesse para ir andando.

- Vou te mostrar o banheiro e lhe explicar tudo como funcionam as coisas aqui. – disse ele.

Foi me explicando que três famílias usavam o banheiro, ali do lado de fora tínhamos que aguardar caso tivesse alguém no banho. Foi logo tirando as roupas, só que eu nunca tinha visto um homem adulto sem roupas; quis correr, quando me segurou forte pelo braço.

- Calma mulher! É minha esposa agora e maridos e mulheres tomam banhos juntos e nus.

Parei, olhei para o rosto dele, parecia brilhando. Falava com um ar de sorriso nos lábios.

- Está doendo meu braço! – reclamei.

Imediatamente soltou e pediu desculpa, disse que não tinha a intenção de me machucar. Em um leve descuido dele, me escapei, abri a porta e corri.

- Vou ficar aguardando você sair aqui do lado de fora – disse eu.

Parece que ele percebeu que não seria tão fácil como planejou. Teve que mudar de tática rapidinho e recomeçar com mais calma. Depois do banho e do café da manhã, me chamou para deitar ali do lado dele. Só tinha uma cama, fui devagar, andando, ele pegou um livro na mão, e como se estivesse lendo, disse:

- Pode descansar, fique à vontade.

Depois que eu estava do lado dele, foi folheando o livro e conversando comigo. Senti-me bem à vontade, ele conversou bastante e explicou tudo o que eu já deveria saber, ou que talvez mamãe deveria ter falado sobre menstruação. Que era um pequeno sangramento pela vagina, e que só depois que isso acontecesse eu estaria pronta para ser mãe de nossos filhos, foi falando, falando, até que adormeci. Quando acordei, ele fazia carícias em meu corpo, fui aceitando até que aconteceu a nossa primeira relação sexual.

No dia seguinte, meu marido saiu cedo para o trabalho, recomendou-me que não saísse de dentro de casa para nada, se alguém batesse na porta, que eu não atendesse, pois ali era muito perigoso.

Fiquei o tempo todo trancada dentro do quarto, ali não tinha muito o que fazer, passava a maior parte do tempo deitada, ou sentada na cozinha.

Não demorou nem um mês e eu menstruei pela primeira vez. Logo engravidei do primeiro filho.

Trancada em casa, olhava o tempo todo pelo buraquinho do barraco, ali entre uma tábua e outra. Eu via uma feira livre perto, na mesma rua via as donas-de-casa indo e vindo com sacolas nas mãu via uma feira livre perto, na mesma rua via as donas de casa indo e vindo com sacolas nas mos, cheias de frutas e legumes; uma dessas senhoras trazia em suas mãos, uma metade de uma melancia, muito vermelha, fiquei com muita vontade de comer, mas não tinha ordem para sair de dentro do barraco.

Mas a vontade foi maior. Procurei pela casa umas moedas, juntei uns trocados, tomei coragem e saí na rua, mas não sabia mais como caminhar. Fiquei com muita vergonha. Parecia que todas as pessoas tinham os olhares em minha direção, então voltei correndo para dentro do meu quarto, e tranquei novamente, com medo com meu marido descobrisse que eu tinha saído.

Quando ele chegou do trabalho, eu perguntei se eu podia sair para ir à feira, sem contar que tinha saído.

- Não! – A resposta foi seca e firme e acrescentou que iria me perder pelas ruas, e acabar dando trabalho para ele. Ele me perguntou:

- O que você quer na rua?

Eu disse:

- Pela fresta da janela, vi uma mulher com uma melancia nas mãos, tive vontade de comer, parecia muito boa. Era o primeiro desejo típico de gravidez.

Ele saiu e logo voltou com uma sacola cheia de frutas, fiquei muito contente, e entendi o recado: De dentro de casa não podia sair. Mas, a melancia que ele trouxe não era tão boa quanto a da feira.

Uma vez por mês, meu marido me levava ao médico para fazer o pré-natal.

O tempo foi passando até que nasceu o primeiro filho, uma experiência mágica ser mãe pela primeira vez ainda com quinze anos de idade.

Não tinha experiência, ajuda e nenhuma noção de como cuidar de um bebê. Esquecia de dar banhos, mamadeira, e trocar a fralda, até que eu me lembrasse o ele queria, o bebê já havia chorado muito, e eu chorava junto com ele.

Assim, passávamos a maior parte do tempo chorando.

O tempo foi passando, e descobri que estava grávida de novo, pela segunda vez; ainda não tinha aprendido como cuidar do primeiro filho e já esperava outro. Nem dez meses depois, nasceu o a minha primeira filha e fiquei com dois bebês chorando junto comigo. Tempos depois, vieram outro menino e outra menina.

Então fiz uma laqueadura e fiquei com quatro lindos bebês que me ensinaram como caminhar de novo.

Eles corriam pra fora e eu corria atrás deles. Assim, nós fomos vivendo, já não me sentia tão prisioneira, corria o tempo todo com as crianças, com apenas vinte anos, era mãe de quatro filhos.

Todos os dias, levava-os para tomar sol pela manhã, eles eram minha vida.

Meu marido era bruto, seco, de pouca conversa, mas nunca deixou faltar nada em casa. Ele mesmo ia até o mercado, enquanto eu e as crianças ficávamos em casa esperando a compra chegar.

Agora que eles estão crescidos, pedi para o meu marido para abrir este barzinho. É um modo de me comunicar com as pessoas e ganhar uns trocados para ajudar nas despesas da casa. Um amigo meu me perguntou:

- Você é feliz?

Eu respondi:

- Muito feliz! Meus filhos com sorriso no rosto são a minha vida.

A Infância e adolescência

Nasci em uma tapera de sapê, nestas casas de pau a pique, feitas de barro, toda amarrada de cipó. Ficava à beira da estrada, perto de um rio, num lugar chamado Vargem Alegre, no município de Dores do Turvo.

Esta tapera ficava praticamente escondida no meio do mato alto. Quem passava por ali jamais imaginaria que no meio do nada vivia uma família e muito feliz, por sinal. Papai e mamãe pareciam entender-se muito bem, nunca nenhum dos filhos havia presenciado sequer uma palavra de ofensa de um para o outro.

Em uma noite de chuva forte, no dia 8 de novembro de 1961, quando nasci prematura de sete meses. Mamãe conta que naquela noite, ela dizia para papai que não estava bem, mas ele não lhe deu muita atenção, pois ainda faltavam dois meses para completar a gestação. Ele pensou que o mal-estar vinha de alguma coisa que ela havia comido e não lhe feito bem.

Papai era calmo, muito sossegado e não se preocupou com as queixas de mamãe. Com os trovões fortes e relâmpagos que clareavam a casa, reforçando a luz da única lamparina de querosene acesa, minha mãe entrou em trabalho de parto. Papai percebendo finalmente a gravidade da situação, desesperou-se e saiu na chuva para buscar ajuda.

A noite estava muito escura, com o mato alto, papai se perdeu e esperava o relâmpago para clarear seu caminho, o que acabou atrasando sua chegada à casa da parteira. Chegando lá, gritou desesperado o nome de Dona Julieta, uma senhora sábia, que era quase uma médica para aquele povo humilde, e sem condições para ir até a cidade mais próxima para procurar serviços médicos. Então, ela aprendeu a curar as pessoas com chás caseiros e remédios feitos de raízes, além de orações e tradicionais simpatias.

Costumava dizer com orgulho que pegou no colo todas as crianças que nasceram naquelas redondezas.

Ao ser procurada por meu, ela foi o mais rápido que pôde para cuidar de mamãe, enfrentando as más condições do caminho e levando muito tempo para desviar das enchentes que subiam rapidamente às encostas.

Quando chegaram à nossa casa, lá estávamos nós... Eu havia nascido com mamãe sozinha e sem esboçar reação, permanecendo estática até a chegada da parteira, que imediatamente prestou socorro à parturiente e dedicou os cuidados à recém-nascida, agasalhando-a após o primeiro banho.

Mamãe contava que eu era tão pequena que mesmo eu sendo já o oitavo filho, tinha medo de me pegar, pois corria o risco de escorregar entre os panos e cair no chão. Dizia que eu pesava cerca de 1 kg no máximo.

Por isto, mamãe me deu muita atenção. Amamentava a cada meia hora, vivia comigo nos braços pra cima e pra baixo, que era pra me manter aquecida. Teve medo de me perder, achou quase impossível uma criança tão pequena sobreviver com as condições precárias em que vivíamos.

O tempo foi passando, eu fui crescendo, com a saúde frágil e muito “miudinha”. Tratada com chás caseiros, costuma dizer que estou aqui quase por um milagre de Deus.

Éramos em dezoito irmãos, mas apenas dez sobreviveram.

Minha mãe nunca fez um pré-natal ou mesmo uma visita ao médico.

Nós não tínhamos nada, nem mesmo uma simples sandália nos pés, ou uma blusa de frio.

Papai acendia uma lata de fogo no meio do quarto todas as noites de inverno para nos aquecer e nós dormíamos todos juntinhos em uma esteira de taboa no chão. (Taboa é uma planta nativa da região.) Papai e mamãe trançavam esta planta e construíam um colchão para nós.

Minha mãe era linda e loira, descendente de italianos, e papai bem moreno, descendente de índios. Apaixonaram-se loucamente, porém meus avós tentaram impedir o casamento de todas as formas possíveis, mas foi em vão.

Papai, considerado um negro e violeiro, era chamado de vagabundo. Meus avós não o aceitaram como genro e excluíram minha mãe da família. Os dois jovens, sem apoio de familiares dos dois lados, isolaram-se e foram lutar juntos.

Papai acabou abrindo um comercio próximo à cidade. Era como um mercadinho que vendia e comprava aves e outros animais. Assim foi criando os dez filhos.

Eu vivia correndo pelos pastos subindo em arvores, nadando em rios, e cachoeiras das redondezas. Papai nunca se preocupou em nos dar uma educação, pois não achava necessário, principalmente no caso das mulheres.

Ele sempre dizia que bastava às sete filhas aprenderem os serviços de casa, como lavar, cozinhar, passar, etc. A contragosto de papai, mamãe permitiu que uma prima nos ensinasse a ler e escrever, e isto é o pouco que sei até hoje. Mas, um dia ainda quero voltar a estudar.

Quando tinha 14 anos de idade, já quase completando os 15, apareceu um moço lá em casa, que havia chegado de São Paulo, passando férias. Era filho do dono da fazenda vizinha. Tinha uma conversa boa, era bonito, bem trajado e até possuía relógio no pulso. Todo falante, com dinheiro no bolso, que fazia questão de exibir, comprando a bebida mais cara da venda.

Percebi que conversava muito com papai, meio aos cochichos pelos cantos do comércio. Também percebi que o papo era interessante e fiquei curiosa para saber ao menos do que se tratava. Até tentei aproximar sem ser percebida, mas eles pararam de falar, e a educação que recebi, não permitia que ouvisse conversas alheias. Então saí, deixando que eles continuassem a conversa.

Não imaginava que o assunto que estava sendo discutido era eu! Tratava-se do meu casamento com aquele moço desconhecido. Para minha surpresa, no fim de tarde, depois que papai fechou o comercio, me chamou e anunciou meu noivado. Levei tamanho susto!

Tentei argumentar:

̶̶ ̶ Mas papai...

̶ ̶ Mas papai o que? – Interrompeu-me ele com a voz grossa e rude. Eu nunca o tinha ouvido falar assim comigo... Fiquei assustada e tive medo quando ele perguntou:

̶ ̶ Vai desrespeitar seu pai?

̶ ̶ Não. Desculpe papai, não é isto, só queria dizer que não conheço este moço.

Papai continuou:

̶ ̶ Não tem mais, nem menos, você se casa no fim do ano e pronto.

̶ ̶ Mas... Eu só tenho 14 anos... – argumentei

̶ ̶ Isto é assunto meu, eu resolvo! Eu resolvo do meu jeito!

̶ ̶ Você só tem que providenciar o enxoval do casamento junto à sua mãe.

Fiquei sem palavras, não sabia o que dizer, apenas fiquei ali diante dele por uns momentos, tentando encontrar uma palavra que definisse meus pensamentos.

Eu olhei para mamãe como um pedido de socorro, mas mamãe baixou os olhos. Até o presente momento, ninguém havia desrespeitado uma ordem de papai. E a ordem era curta e grossa.

Eu não sabia por onde começar; fiquei completamente perdida, chorei até dormir.

Na madrugada perdi o sono e escutei quando mamãe e papai discutiam baixinho no quarto ao lado. Não deu para entender a discussão, pois sempre eram muito discretos em assuntos pessoais.

Eu tentava encontrar uma saída para fugir daquele casamento arranjado por meu pai. A única coisa que me passou pela cabeça foi falar com uma professora que dava aula na fazenda de café, onde o fazendeiro abriu uma escola, para os filhos dos empregados estudarem.

Esta professora passava a cavalo ou a pé todos os dias perto da minha casa. Às vezes até parava para beber água na bica. Ela era meiga, calma, e muito carinhosa com todas as crianças. Então pensei: quem sabe poderia me ajudar.

No dia seguinte, a esperei bem distante da minha casa. Longe de papai e de todos. Ela se chamava D. Nilza. Então gritei:

̶ ̶ D. Nilza, por favor espere, preciso lhe falar.

Ela parou, apeou do cavalo que estava montada e com toda atenção me perguntou:

̶ ̶ O que você quer minha linda?

̶ ̶ É apenas uma pergunta. Vou ser rápida, nem precisava descer do cavalo – Eu respondi.

̶ ̶ Já estou cansada do lombo deste animal, vou aproveitar para caminhar um pouco. Mas o que você quer saber?

̶ ̶ Só queria perguntar se alguém pode se casar com 14 anos.

Ela sorriu, olhou pro meu tamanho e disse:

̶ ̶ Já está pensando em se casar? É cedo ainda, não acha?

̶ ̶ Não, é só curiosidade.

Ela respondeu:

̶ ̶ Não, antigamente sim, mais hoje, é só depois dos 16 anos e com a autorização dos pais.

Quando ouvi estas palavras, fiquei tão feliz que nem me despedi da professora. Voltei correndo para meus afazeres domésticos e pensando “Que bom, ainda tenho um ano para escapar deste casamento!”.

Então, dei graças a Deus e voltei a cantarolar e fazer palhaçadas para os meus irmãos. Eles sempre diziam: “Esta minha irmã é uma atrapalhada, o trabalho dela não sai, mas palhaçada... é o dia todo!”.

Quando entrei em casa, dei falta do papai e perguntei à mamãe:

̶ ̶ Cadê papai?

̶ ̶ Foi na cidade – Respondeu-me ela

̶̶̶ ̶ Fazer o quê?

Mamãe respondeu:

̶ ̶ Ele disse que iria resolver uns assuntos lá... Coisa dele.

Não dei importância ao fato, porque papai sempre ia à cidade para buscar mercadorias para o comercio, pensei que fora uma viagem de rotina.

Quando papai chegava da cidade sempre trazia alguma novidade para nós, e todos aguardavam ansiosos o seu retorno.

Quando ele chegou, explicou para os demais filhos que foi uma viagem às pressas e por isto não havia tido tempo de comprar nada para nós e que na próxima semana voltaria e compraria muitas coisas. Eu fiquei ali por perto e pude ver quando ele tirou um papel do bolso, que para minha surpresa era meu registro de nascimento.

Eu ainda não havia sido registrada, por isto me registrou como sendo um ano mais velha. Ao invés de 1961 no registro constava 1960.

Ele acrescentou:

̶ ̶ Daqui há dois meses você se casa.

Naquele momento acabaram-se todas as minhas esperanças. Estou perdida -, pensei. O jeito foi me conformar e aceitei me casar, pois papai não me deu segunda opção.

Daí por diante, todas as conversas que tive com mamãe foram sobre como deveria se comportar uma esposa.

Mamãe me dizia que eu deveria respeitar o meu marido em toda e qualquer situação. Jamais poderia responder-lhe ou sair de casa sem sua permissão. Quando ele chegasse em casa, todo o serviço deveria estar pronto: comida na mesa; roupas limpas e bem passadas; casa limpa; toalhas no banheiro; chinelos perto de onde ele fosse se sentar, etc.

Tinha de ser carinhosa e calma quando falasse com ele. Toda e qualquer pergunta que eu fizesse, seria sempre revertida em favor dele.

Aí eu perguntei:

̶ ̶ E se por caso eu ficasse doente e não desse conta do serviço?

E ela respondeu:

̶ ̶ Mulheres não podem adoecer, enquanto se agüentarem de pé devem estar trabalhando.

̶̶ ̶ Pois sim mamãe – acatei.

Os dias passaram rápidos e a data estava marcada para o dia 13 de novembro 1976.

O moço chegou para noivar comigo. Peguei na mão dele para cumprimentar. Ele tentou me dar um beijo no rosto, mas eu escapei deixando ele um pouco sem graça diante de papai e mamãe. Neste momento eles foram à cozinha preparar o café pro moço.

Aproveitei o momento e perguntei:

̶ ̶ Por que quer se casar assim tão depressa?

Ele respondeu:

̶ ̶ Tenho pouco tempo aqui. Apenas 30 dias de férias e meu pai diz que todo homem tem que ter uma família, e nós dois vamos formar uma.

̶ ̶ Preciso de mais um tempo, gostaria de organizar uma festinha – Argumentei.

̶ ̶ Isto não é importante. Festa não vai nos levar a nada. Hoje em dia, isto não se usa mais. Aproveitemos este dinheiro que gastaríamos na festa, para gastá-lo na viagem para São Paulo.

̶ ̶ Vou te levar para lá e você vai ser muito feliz!

̶ ̶ O que tem lá? – Perguntei.

̶ ̶ Lá é uma cidade linda! As ruas são cheias de gente andando, fazendo compras, muitos e muitos carros circulando o dia todo. As ruas são iluminadas, é realmente uma beleza de cidade, tenho certeza que você vai adorar lá.

Confesso que fiquei muito curiosa.

Imaginei um monte de lamparinas de querosene acesas no chão iluminando as ruas; os animais caminhando do lado das lamparinas... Devia ser realmente muito bonito! Até fiquei ansiosa para ver como era São Paulo.

Mas trazia na mente, eu imaginava as cidades a partir das coisas do sertão. A curiosidade cresceu, e nem me passava pela cabeça o que era uma cidade grande como São Paulo.

Assim, enchendo minha cabeça de ilusões, e acreditando que o casamento seria um eterno mar de rosas, é que chegou o tão esperado dia.

O casamento foi realizado na igreja matriz da cidade de Dores do Turvo. A celebração foi feita pelo padre Nelson.

Uma chuva forte caiu e molhou-me toda, pois o carro que me levou até a igreja era um jipe sem capota, mas não dei importância ao fato, já que eu era acostumada a brincar na chuva. Para mim, não passou de um vestido branco molhado. Aquelas chuvas fortes e passageiras eram a coisa mais natural naquele clima quente.

No caminho de volta para casa, a chuva nos pegou e eu brincava como uma criança inocente com as gotas que vinham em direção ao meu rosto. Não podia imaginar o que me aguardava.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

...A observação...

Tinha os olhos negros, um pouco inchados, como se tivesse chorado ou talvez acabado de acordar.
O rosto era redondo, com um bigode preto muito bem feito, que se destacava em sua pele clara> Unhas limpas e bem lixadas, bem cuidadas, trajava uma camisa azul clara por dentro da calça jeans com um cinto de couro marrom e sapatos muito bem engraxados. Tinha uma postura de um “doutor”.
Eu me senti muito inferior a ele e pensei com meus botões: Que homem fino, educado e bonito. Se eu tivesse estudado e fosse uma pessoa educada, teria coragem de puxar um assunto que daria um bom bate-papo, assim como política, ou futebol talvez... Mas aqui nem rádio ouço. O que poderia falar com este homem com toda essa educação que ele tem?
Então pensei: Responderei o que me perguntar. Deve ser um viajante, desses que passam e nunca mais voltam, não deixam rastros, e nem saudades... Apenas vagas lembranças.
Porém no outro dia, no mesmo horário o carro encostou ali outra vez e repetiu a mesma cena... A bebida e os mesmos gestos. Deu para notar que ele era de pouca conversa.
Mais eu estava morrendo de curiosidade para saber mais sobre sua vida. Na verdade, eu queria saber era se voltaria sempre aqui no meu bar, pois tinha certeza que poderia aprender muita coisa com ele como, por exemplo, falar corretamente. Ele falava palavras que já estavam em desuso, sempre com aquele sotaque puxado de Minas Gerais.
Apesar de não entender o sentido de muitas palavras, é sempre muito bom ouvir alguém educado conversando, só que não sabia como começar a conversa, mesmo sendo muito comunicativa.
Em um momento tomei coragem e lhe perguntei:
-- Qual o seu nome?
-- De onde veio?
-- Onde mora?
Tudo de uma só vez. Ele foi respondendo:
-- Meu nome é Pereira, estou vindo do serviço, e estou passando por aqui porque a estrada está em reforma e desviou-me do caminho normal.
-- Moro aqui mesmo em Ribeirão Pires, não muito longe daqui.
-- Que legal! Disse eu.
-- Espero tê-lo como freguês por um bom tempo! Tomara que estas obras durem bastante, é muito bom receber um freguês tão importante em meu humilde barzinho.
Ele respondeu:
̶ ̶ Obrigado, mas sou um trabalhador comum, como qualquer outro.
Eu perguntei:
̶ ̶ Seus pais são vivos?
Ele me respondeu que não. Seu pai havia falecido em um acidente e ele sentia muito a sua falta, pois havia sido ele que o tinha criado praticamente sozinho.
-- Ele me ensinou tudo o que sei! Tudo o que aprendi nessa vida devo a ele!
-- Por exemplo? Questionei.
-- Ele me ensinou como lidar com as mulheres. Ensinou-me que todas as mulheres merecem respeito e carinho; desde a mais humilde, até a mais importante. Devem ser tratadas como damas! Papai me disse para amar todas.
Fiquei na minha, me calei, porque não entendi o sentido do “amar todas...” Tratei logo de mudar de assunto e perguntei:
-- Você tem filhos, esposa, como todo mundo, ou é um boêmio?
Ele respondeu firme com segurança:
-- Tenho esposa e filhos, que amo muito, eles são minha vida!
Eu continuei perguntando, já que era eu quem mais falava:
-- Aonde você trabalha?
Ele me respondeu:
-- Trabalho em uma firma muito boa, estou lá há muito tempo e sou chefe de seção. Foi meu primeiro emprego e pretendo me aposentar lá.
Com todos esses benefícios, não entendia porque seus olhos tinham sempre uma lágrima pronta para cair e que ele sempre disfarçava esfregando as mãos uma na outra, ou olhava em direção ao horizonte como se procurasse a ajuda do vento para secar seus olhos.
Quando eu olhei firme nos seus olhos, parece que teve medo que eu indagasse o porquê de eles anunciarem uma profunda tristeza e tratou logo de mudar de assunto.
Disse que iria sair vereador nas próximas eleições e que contaria com o meu voto.
Respondi que o meu voto seria dele, e que fazia questão de apoiá-lo no que precisasse, e autorizei que colocasse faixas e cartazes aqui, e prometi convencer meus fregueses a votar nele.Tive a idéia de que meus filhos trabalhassem no dia das eleições como boca-de-urna.
Em troca, depois que fosse eleito, pedi que não se esquecesse de nossas ruas que viviam cheias de mato. Cuidaria de nosso bairro, trazendo melhorias. Ele dizia que, apesar do bairro ser tão perto do centro, lhe lembrava o sertão. Já havia al, uma boa e saudável amizade.
No dia seguinte, ele apareceu com os acessórios que os políticos usam em uma campanha eleitoral. Já se mostrava mais falante e dizia com entusiasmo o que pretendia fazer depois de eleito.
Foi no meio de uma dessas conversas, que eu atravessei o assunto e perguntei:
-- Por que há tristeza nos seus olhos, que por mais que disfarce ela aparece sempre?
Surpreso com a pergunta, respondeu evasivamente:
-- Você é muito observadora! Ninguém nunca prestou atenção em meu jeito de olhar. Mas, não se preocupe, não é nada! Apenas uns probleminhas de rotina... E continuou:
-- São uns trotes que estão passando por telefone para minha esposa e meus filhos, falando besteiras, e isso está atrapalhando um pouco a minha vida conjugal.
-- Você desconfia de alguém? – Perguntei
̶ ̶ Não, não sei quem lucraria com o fim do meu casamento. Estão pegando pesado e minha esposa está intrigada com esta situação. Anda irritada, nervosa; todo dia é a mesma coisa e tenho até medo de chegar em casa. Se minha esposa não for madura o suficiente para passar por cima disto, estou perdido!
Aconselhei-o a conversar bastante com ela, ressaltando que os dois juntos superariam isso e que ninguém é capaz de separar o que Deus uniu.
Foi então que comentou:
-- Que Deus abençoe tuas palavras!
-- Vou rezar por você e pedir à Nossa Senhora Aparecida que cubra seu lar com o manto sagrado, que não deixe a tentação do mal perturbar vocês. – disse eu olhando em seus olhos.
-- Obrigado pelas suas palavras de conforto. Ainda não tive coragem de comentar este assunto com ninguém, você é a primeira pessoa com quem me senti à vontade para falar da minha vida pessoal.
Houve um breve silêncio, em que ele deixou a preocupação transparecer e novamente seus olhos ficaram cheios de lágrimas e continuamos o trabalho.
-- Coloque esta faixa aqui. – pediu-me.
-- Acho que vai ficar melhor lá. – Respondi, apontando para outro canto.
-- Tem razão! Chama mais atenção porque fica na porta de entrada.
-- Mais tarde quando meus fregueses chegarem, vou conversar com eles, falar de você e convencê-los a lhe dar um voto.Tenha fé em Deus que vai dar tudo certo e você vai ser eleito; ficará em paz com sua família e teremos alguém na prefeitura lutando pelos moradores do nosso bairro.
-- Com certeza! – Disse ele
Assim eu fiz! Trabalhei, conversei com os vizinhos, amigos, parentes, meus filhos mais velhos e meu marido.
Os dias passaram rápido e nós cheios de esperança, na expectativa do dia das eleições...
Até que enfim chegou a tão esperada data! Fizemos tudo certo, conforme combinamos.
Certa de que ele iria vencer as eleições, no dia seguinte, corri para pegar o jornal para procurar o resultado da votação. Mas, para minha surpresa, o nome dele não constava dentre os eleitos.
Fiquei muito chateada. Gostaria que ele estivesse perto para que eu desse uma palavra de consolo; lhe dizer que daqui a quatro anos teria uma nova eleição e que o importante era lutar sempre e nunca desistir.
Ele deu uma sumida por uns dias, acho que sentiu a perda, mas o fato era que não havia mais nada a fazer. O jeito era corrigir o que erramos e fazer melhor nas próximas eleições. Mas, infelizmente não estava conosco, para juntos conversarmos sobre o assunto
Eu continuei minha vida de sempre. Passado um tempo, ele apareceu no bar, para agradecer o apoio. Eu aceitei os agradecimentos e pude perceber o quanto ele estava chateado por ter perdido as eleições. Preferi deixar este assunto de lado, afinal tínhamos tempo suficiente para outro dia talvez, falar sobre política. No momento falar sobre perdas não ia nos levar a nada.
Até que ele me perguntou:
-- E você? Fale -me um pouco sobre você... Pelo seu sotaque é mineira, não é?
-- Eu? Eu sou sim. – confirmei.
-- Conte-me alguma coisa sobre você; fale-me sobre a sua vida.
-- Na minha vida não tem nada de especial, ou importante. – comentei.
Porém ele insistiu, querendo saber mais um pouco sobre mim, de onde eu vinha, de que lugar de Minas eu era... Talvez ele conhecesse bem, pois era uma pessoa que conhecia uma boa parte do Brasil.

...A Balconista...

Durante cerca de dez anos, eu dividia o meu tempo entre as funções doméstica e a de proprietária de um pequeno comércio em Ribeirão Pires, que era apenas uma porta aberta para vender umas poucas mercadorias. A mais vendida era a pinga, procurada pelos trabalhadores que por ali passavam no fim da tarde, ou na hora do almoço; algumas balas, doces e salgadinhos para as crianças que seguiam a caminho da escola.

O local era tão pequeno e tranquilo que eu trançava meus barbantes com uma agulha de croché, enquanto tomava conta do pequeno comércio. Meu marido trabalhava em uma empresa para garantir o sustento da casa e os estudos de nossos quatro filhos.

Estes, que cresciam muito rápido, já estavam procurando seguir seus caminhos. Os dois mais velhos cursavam o colegial e os mais novos, o primário.

Às tardes, meu marido chegava da empresa, descansava um pouco e depois tomava conta do bar, enquanto eu preparava o jantar para que meus filhos pudessem ir à escola bem alimentados.

Eu era uma jovem-senhora, cabocla, de cabelos longos e negros, muito sorridente e bem-humorada; estava sempre cantando, nunca esquecia os “obrigados” e “volte sempre” a cada freguês, e com este mesmo carinho me dedicava a meus filhos e meu marido.

Eu era um pouco rude na leitura, não havia completado nem o primário, pois quando criança não tive chance de estudar.Às vezes contava com a ajuda dos filhos ou dos próprios fregueses para voltar o troco. E assim ia levando a vida com honestidade.

Parecendo feliz da vida... (ou talvez disfarçasse muito bem minhas tristezas) e vivia sempre cantando. Nada era capaz de tirar aquele sorriso maroto do meu rosto.

Era acostumada a atender os vizinhos e amigos da região e já sendo conhecida por todos ali. Na hora das crianças passarem rumo à escola, sempre ficava do lado de fora para ganhar um beijo delas.

Eu oferecia uma balinha para aquelas que não podiam comprar e todas me chamavam de “tia”. Algumas faziam questão de mostrar os cadernos para que eu visse como eram caprichosas e como sabiam direitinho a lição que era dada pela professora.

Tinha sempre um conselho na ponta da língua para os que tiravam notas vermelhas e esses, quando melhoravam seu desempenho, vinham correndo em minha direção para ganhar um elogio e uma balinha.

Em uma tarde de verão, o sol brilhava - dia raro nesta região, que sempre nevoava nos fins de tarde. Antes do por do sol, apareceu um freguês diferente, no seu próprio carro, bem trajado, desceu com passos lentos, olhando de um lado para outro, como se estivesse sendo seguido ou procurasse alguém.

Entrou, cumprimentou-me com muita educação, pediu-me que lhe servisse uma dose de vodka com gelo. Fiquei surpresa, pois até aquele momento só havia servido umas doses de pinga pura ou no máximo com limão. Por sorte, havia uma garrafa escondida atrás das outras.

Como era a bebida preferida de meu marido, tratei logo de pegar o gelo e servir o freguês. Ele agradeceu e ficou de pé meio debruçado no balcão, olhando direto para aquele copo entre os dedos, acariciando-o com o polegar, como se estivesse pensando em alguma coisa muito importante.

Talvez um grande problema, daqueles que fazem com que apareça aquela “ruguinha” a mais na testa.

De vez em quando ele colocava o fundo do copo na palma da mão. Acho que sentia a temperatura da bebida conforme o gelo ia derretendo... E ele parado ali na minha frente daquele jeito. Não tive reação para interromper o silêncio; não havia mais ninguém, no estabelecimento, apenas eu e ele.

Eu estava de pé do outro lado do balcão com as mãos para trás, esperando a próxima ordem do freguês.

Passaram-se uns minutos e ele permanecia na mesma posição. Depois acabou tomando a bebida, agradeceu, despediu-se, entrou em seu carro e se foi.

Maria de Lourdes Meireles

Eu nasci em Minas Gerais, no ano de 1961. Vim para São Paulo em 1976. Venho de uma família humilde, tive na adolescência a obrigação de me casar com um homem desconhecido e durante vinte anos fui prisioneira e vitima deste homem que acabou me abandonando e revelando sua verdadeira preferência sexual. Mais tarde conheci o amor, vivi cinco anos perdidamente apaixonada e perdi este amor.

Hoje, danço, canto e escrevo em nome do amor que acredito em eterno, que no além o encontrará e será feliz para sempre. Escrevi este livro em resposta a todas as pessoas que tentaram contra minha felicidade. Tenho o prazer de dizer-lhes que estou muito feliz!

Vou contar um pouco de mim...

Já vivi muita coisa,já passei por muita coisa...
Por isso esse Blog...Para,quem sabe...,se alguem ler...se identificar...ver como tudo na vida tem solução...que tudo passa...
São situações reais,coisas que aconteceram na minha vida e vou compartilhar...

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