terça-feira, 24 de maio de 2011

Vida conjugal e o segredo

O sorriso dos meus filhos era tudo o que eu precisava para viver, e estes sorrisos estavam ficando cada vez mais raros. Eu transformava-me em mil para arrancar tais sorrisos. Vestia-me de bruxa ou palhaça, fazia show como cantora, dançava com gestos engraçados, até a hora que o pai chegava. . Então, todas as crianças corriam para a cama, fugindo dele, que cada dia ficava mais violento. As brigas eram constantes e até chegavam a agressões físicas; eu intervinha e apanhava também.
A desculpa era a maldita pinga, agora com pinga em casa, nossa vida estava um verdadeiro inferno; havia brigas todos os dias e cada dia maiores.
Certa vez, fomos convidados para uma festinha de aniversário de uma criança, filha de um amigo dele. Então ordenou:
- Arrume os nossos filhos que á noite, quando eu chegar do serviço, vamos neste aniversário.
As crianças ficaram muito felizes, porque íamos a uma festa. Com certeza terá bolo, doces e outras delícias. Todos ficaram empolgados com a festa que seria na casa de seu melhor amigo..
Todos aguardávamos ansiosos a chegada do meu marido para irmos à festa. Quando ele chegou, estávamos todos arrumadinhos e cheirosos para sairmos.
Chegamos à casa do amigo e as crianças felizes corriam brincando pela casa e comendo salgadinhos. A casa estava linda, enfeitada, com bexigas e cartazes, a mesa coberta com papel crepom e o bolo sobre ela era o destaque.
Fiquei sentada com meu bebê mais novo no colo ali no canto da cozinha aguardando a hora de partir o bolo. As crianças se divertiram a valer com os amigos, quando percebi que meu marido e o amigo se afastaram do local onde estavam conversando. Então, me levantei com o bebê no colo e sai, assim devagarzinho, como se tivesse conhecendo a casa. Olhava em um quarto em outro, na sala e nada dos dois. E pensei intrigada para onde eles teriam ido para sumirem de reprente?
Havia do lado de fora um lugar como se fosse uma adega,, onde ficavam as bebidas mais fortes. Fui me aproximando lentamente, sem que eles percebessem. Lá dentro a luz acesa contrastava com a escuridão do lado de fora, de forma que eles não me viam. Tive o desprazer de ver uma horrível cena. Meu marido dava um arrocho no amigo, coisa que nem eu como esposa nunca tinha ganhado. Não daquele jeito tão despudorado!
Fiquei louca de ciúme e não aceitei a idéia. Desnorteada, confusa, enlouquecida pelo que vi, em silêncio juntei meus filhos e saí da festa. Mas não fui para casa. Segui para a casa de uma amiga, onde passei aquela noite e não comentei o assunto com ninguém, mas fiquei muito magoada com o que tinha visto.
No outro dia, cheguei em casa por volta de meio dia e já o encontrei completamente embriagado e sem almoço. Ele nunca havia passado a hora das refeições, pois sempre cumpri com minhas obrigações de dona-de-casa, conforme mamãe havia ensinando. Mas naquele dia estava me lixando para hora do almoço ou jantar. Não sei se desconfiou que eu tinha visto a cena da noite anterior. Nem eu, nem ele falamos sobre o assunto. Meus olhos pareciam
pegar fogo, de tanta raiva e passei a encará-lo de frente, sempre o olhando diretamente nos olhos, ao contrário do que acontecia até então, quando me dirigia a ele sempre cabisbaixa, com ar de obediência. Escondendo-se atrás da bebida, ele fingindo embriaguez, foi se deitar. Deitei-me ao lado dele, mas não consegui pegar no sono. Minha raiva subiu à cabeça, fiquei enlouquecida de ódio, peguei um abajur no criado-mudo e joguei na cabeça dele, ferindo-o com um corte profundo na testa.
Quando me perguntaram por que havia batido nele, respondi, que era por toda as surras que havia levado dele. Que agora chegou a minha vez... Chamei-o pra briga: - Eu é que vou te dar um coro..., disse eu. Foi então que ele partiu pra cima de mim e nós lutamos, rolamos no chão e quebramos tudo ali. Meu filho mais velho entrou na briga, mesmo sem entender nada do que estava acontecendo. A polícia foi chamada pelos vizinhos, devido aos gritos de desespero das crianças, que pediam socorro. A viatura chegou e fomos levados para a delegacia. E lá permanecemos calados e só o meu filho falou, relatando a briga. Depois de ouvir a criança, o delegado nos deu conselhos e acabou nos liberando.
Daí por diante, meu marido ficou com medo de dormir comigo e ser agredido de novo. Passou a se ausentar de casa, ficando até três dias fora. Sempre que vinha trazia folha de cheque para as despesas e sumia novamente. Nunca perguntei onde andava, mas depois de certo tempo achei que não era certo aquilo. Não era isso que havia jurado diante do padre no dia de nosso casamento. Reclamei meus direitos de esposa. Ele se mostrou louco de ódio, agrediu-me mais uma vez e foi embora. Deixei pra lá e nunca mais falei no assunto.
Ficamos nessa vida por cerca de dez anos, conversando apenas o mínimo necessário. Até que um dia, ele reclamou que eu e as crianças dávamos muito prejuízo, pois comíamos demais. Se não cortássemos despesas, deixaria que passássemos fome, para ficarmos espertos. Preferi ficar quieta, mas meu filho mais velho não agüentou a provocação. Jogou o prato de comida na cara do pai e lhe disse poucas e boas. Foi então que investiu contra meu filho e eu parti pra briga. Todos apanhamos e todos batemos e ao final ele foi embora. A violência física, psicológica e moral, também chegou à forma sexual, pois, como me recusava a ter relações desde que presenciei sua homosexualidade, em suas idas e vindas, algumas vezes violentou-me e agrediu-me com fúria, talvez como uma forma de me pressionar a contar o que tinha descoberto sobre seu caso com o “amigo”.
A situação ficou cada dia pior e percebi que estava me tornando uma pessoa muito triste e sem perspectiva de vida. O sonho de um lar feliz havia caído de vez por terra.
Passado esse tempo e vendo meus filhos mais velhos já casados, dei-me conta de que lá se iam uns 19 anos de casamento e já tínhamos dois lindos netos, e que apenas continuávamos mantendo a aparência de marido e mulher perante a sociedade, embora há muito tempo não houvesse qualquer contato físico.
Ninguém suspeitava de nada. Havia mais de 12 anos que entre nós não havia troca de carícias ou mesmo uma palavra de amor.
Eu vivia pros meus filhos e ele vivia pros “amigos”. De vez em quando a gente saia junto como um casal normal e freqüentávamos a sociedade como marido e mulher. Nem eu e nem ele jamais encaramos o assunto de frente. Os filhos nunca imaginaram que papai e mamãe só eram “bons amigos” e que entre quatro paredes não acontecia nada; apenas dormíamos.
Acabei acostumando com essa situação. Assim, as conversas eram apenas a respeito dos filhos e problemas domésticos. Eu ia levando a vida e a vida me levando... Um dia ganhamos uma afilhada de casamento no estado de Minas Gerais. A cerimônia estava marcada para 3 de janeiro, então combinamos que passaríamos o Natal e Ano Novo em Minas e ficaríamos no sítio ou na casa da cidade, pois tínhamos duas propriedades lá, mais ou menos a uma distância de 3 quilômetros uma da outra, além de ter como opção casas de nossos familiares. Eu concordei e sugeri que fôssemos com os dois carros, assim levaríamos a família toda, pois se tratava de um período de festas e assim ficaríamos todos juntos, inclusive com genros, noras e netos.
Partimos de viagem com os carros cheios e o trajeto foi uma maravilha. Chegamos todos bem e felizes. Era Natal e o almoço seria na casa de minha mãe. Meu marido não quis participar, alegando que preferia ficar no sítio onde é mais fresco e tranqüilo, pois precisava descansar do agito de São Paulo. Que não nos preocupássemos que ele ia ficar bem e aproveitaria para dormir um sono na rede mais tarde.
Respondi que tudo bem: - é direito seu querido marido! E em tom irônico dei-lhe um beijo no rosto. Comuniquei que iria pegar o carro grande porque assim iríamos em um carro só. Ele não se opôs e fomos todos para o almoço em casa de minha mãe.
Por volta de 2 horas da tarde, um dos bebês não se sentiu bem, devido ao calor intenso que faz naquela região, sempre cerca de 40 graus. De repente, alguém deu a idéia de voltar para o sítio, onde, devido às plantações e a um rio, havia mais ventilação, tornando a casa mais fresca, com clima mais agradável para as crianças.
Decidimos almoçar e voltar o mais rápido possível e assim o fizemos. Ele não estava esperando por nosso retorno tão cedo, uma vez que pensava que ficaríamos por lá o dia todo. Chegamos de surpresa e flagramos o que de mais vergonhoso alguém pode presenciar Ali na frente da família inteira, estava a pior cena; a mais chocante para uma esposa! O pai de meus filhos, o sogro de meu genro e nora; o avôs de meus netos na maior baixaria com um rapaz, beijando-se na boca e agarrando-se sem nenhum pudor. Meu mundo caiu e a cara também, de tanta vergonha, pois não esperava tamanha safadeza na frente da família inteira.
Transtornado, meu filho teve um choque emocional e entrou em crise nervosa. Quebrou tudo por ali e depois desmaiou. Foi levado para o hospital, onde ficou completamente sem sentido e dopado por três dias e só depois de receber apoio psicológico foi se recuperando aos poucos. Meu filho mais novo calou-se e nunca disse sequer uma palavra a respeito, mas as conseqüências do trauma apareceram mais tarde.
Apesar do ocorrido, no dia e na hora marcada, eu estava na igreja para cumprir o compromisso de madrinha da noiva, que motivou nossa viagem a Minas. Pouco depois de mim, ele também chegou e se pôs a meu lado, sem trocar nem mesmo um olhar. Eu estava fantasiada de madame e esposa, com um largo sorriso no rosto, que disfarçava toda aquela situação constrangedora, ao mesmo tempo em que traduzia minha satisfação de ser testemunha de uma linda cerimônia de casamento, marcada com uma grande festa, da qual a cidade inteira participou, lotando a igreja e homenageando os noivos com muitas palmas.
Uma cena inesquecível que me fez lembrar a ironia de ali testemunhar uma nova vida conjugal, exatamente no momento em que a minha chegava ao fim de forma tão taumatica.

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