terça-feira, 24 de maio de 2011

A perda

Logo depois da viagem que fizemos em lua de mel, voltamos para São Paulo e fomos fazer um exame de rotina, periódicos anuais. A medica que nos atendeu disse que nele foi diagnosticado um probleminha no fígado, provavelmente seqüela do serviço que tinha realizado a vida toda - pois sempre atuou com produtos químicos fortes-, mas bastaria se cuidar que ficaria bem.
Comecei a cobrar dele as visitas ao medico, mas nunca deu importância a tal fato. Dizia que tinha saído da firma com aquele problema e que eu não me preocupasse, pois não havia nada de errado com ele: a médica teria exagerado quando explicou o exame, mas iria procurar outro médico, Porém, toda vez que eu tocava no assunto ele sempre tinha uma desculpa na ponta da língua e dava um jeito de escapar da conversa.
Cheguei a me tornar incoveniente, cobrando dele tais consultas e acabou que, depois que nos casamos, eu estava ficando chata, pegando no pé dele. Expliquei que queria meu marido, que tanto amava, com bastante saúde para que nós dois continuássemos a vida juntos por muitos e muitos anos, até não termos mais nenhum fio de cabelo preto na cabeça. Esta era a maneira de jurarmos amor eterno. Já não achava mais jeito de cobrar dele as consultas sem me tornar chata.
Um dia de julho foi aniversário dele e fizemos uma surpresa, com toda a minha família reunida em volta da mesa com bolo, doces e salgados, além de musica,dança e muita alegria. Ele ficou tão emocionado que chorou, Sequei suas lagrimas com as mãos e meus beijos e o chamei de meu bebe chorão. O resto da festa era “meu bebe” pra lá, “meu bebe” pra cá...O apelido ficou e com o passar dos dias passei a chama-lo de apenas de “Bê”, uma forma carinhosa que encontrei também para diferenciar do meu filho mais novo, a quem eu sempre chamei de “meu bebê”.
.Durante sua comemoração de aniversário fiz questão de deixar claro que aquela era só uma das festas em família e que muitas outras viriam.
- Se Deus quiser minha baixinha, disse ele, também repetindo o apelido com que carinhosamente sempre me chamava.
Então passei a prestar atenção nos seus olhos, que ficaram um pouco inchados, depois avermelhados e, aos poucos foram voltando ao normal, mas não totalmente, pois percebi que em volta da menina dos olhos havia uma cor amarelada, bem anormal. Como era dia de festa, preferi não dizer nada, pois ele estava se divertindo tanto que a festa durou até de madrugada.
No dia seguinte fui conversar com calma e expliquei que havia algo de estranho em seus olhos. Ele olhou no espelho durante um tempo e disse que eu estava louca e que os olhos dele eram assim mesmo, eu é que não tinha reparado antes. Disse que toda vez que passava muito tempo sem usar óculos, os olhos dele ficavam daquele jeito. E acrescentou ironicamente:
- Minha querida esposa ainda não conhece direito o marida que tem.
Porém, meu coração dizia que não estava tudo bem, mas era impossível levá-lo ao médico. Sempre com cuidado, eu voltava ao assunto, mas ele se mostrava irredutível e de maneira nenhuma aceitava que estivesse doente.
O problema se agravou profundamente e ele ficou todo amarelado, até que não teve outra saída a acabou procurando ajuda médica. Seguimos o tratamento, mas não houve melhora. Em uma sexta feira 13 de agosto, ele passou mal e admitiu que estava doente e pediu-me que o levasse ao médico.
Imediatamente, saímos em direção ao hospital mais próximo.E o diagnostico da equipe medica foi hepatite tipo C. Ficou internado e pediu para que eu explicasse para sua família o fato.
E eu fiz o que me pediu e em poucos minutos chegaram seus familiares, que me olharam de cara feia e fui colocada de escanteio, sendo inclusive impedida de visitar P... Senti-me maltratada, pois só conseguia conversar com ele pelo celular e expliquei que aquela situação era ridícula e não iria me submeter a isso. Mesmo assim, apesar de não concordar, aceitei continuar me comunicando apenas por telefone, enquanto aguardaria em casa a sua recuperação.Quando estivesse só, era só me ligar que eu iria para o hospital. Ele, no entanto, entendeu que o clima estava pesado e tinha muita gente ali, a ponto de atrapalhar o trabalho dos profissionais de saúde que lhe atendiam..
Sofri com esta separação, mas não havia outro jeito, além do mais seria por poucos dias, só até ele sair do hospital. Depois viria para casa para eu cuidar dele. Assim, nos falávamos por celular quando a saudade apertava. Mas, para minha surpresa transferiram-no para outro hospital, sem me comunicar e seus familiares desligaram o celular. Eu fiquei como louca e desesperada procurando seu paradeiro. Foram dias e noites em total desespero, sem pregar o olho e mal me alimentava. Chorava de saudades, sem noticias de meu amor.
Passei muitos dias à espera de uma informação. Passou um mês e nada; não chegou e nunca mais ligou. Passei a ficar sentada nos degraus da escada, dias e noites esperando a sua volta e nada dele chegar. Quando tentava me alimentar, as lagrimas faziam questão de temperar minha comida. Minhas narinas pareciam duas torneirinhas e tornavam impossível engolir alguma coisa. Cheguei a ter vertigens e minhas pernas ficavam fracas, mal agüentavam de pé.
Um dia depois de muito sofrimento já era madrugada, meu corpo já não agüentava mais ficar ali esperando sentada no chão frio, e no sereno da noite fui descansar na cama e logo adormeci um longo e profundo sono. Tive o mais lindo sonho que alguém pode sonhar: ele apareceu e pegou-me nos braços, levou-me para um campo florido e perfumado e de repente estávamos nos beijando como sempre. Era tantas flores que o gosto de seus beijos pareciam flores do campo.
Quando meu sonho foi interrompido com o barulho da campainha do telefone, levantei correndo e tropeçando, segurando pelas paredes e móveis que tinha pela frente, certa de que ele tinha encontrado um jeito de me ligar. Se eu estava morrendo de saudades dele, de certo ele também devia estar. Sem contar que sabia que sem ele eu não podia mais viver e que ele precisava encontrar uma maneira de se comunicar comigo. Sei que sabia que eu estava louca sem ouvir sua voz.
Peguei o fone mais rápido que pude e disse: - alô. A voz sinistra repugnante, nojenta e horrorosa, de tantos trotes respondeu meu alô.
A voz disse:
Ele morreu o enterro e as três da tarde. O tom de felicidade era inconfundível, mais condizente com alguém que tivesse ganhado o premio da loteria, não escondendo o sorriso na voz. A principio pensei que seria mais um trote, mas depois da conversa eu cai na realidade: era o tiro que ela prometia costumeiramente pelos trotes...
Mas, ao contrário de alvejar minha cara, conforme as ameaças, o tiro foi certeiro em meu coração. Cai, perdi as forças nas pernas, faltou o ar para respirar, a vista escureceu e apaguei ali mesmo. Só voltei recobrei os sentidos no dia seguinte, quando a ficha caiu: havia perdido meu amor..
Confusa, sem saber ao certo o que era mentira ou verdade, se ele havia mesmo falecido, cheguei a pensar que era apenas mais um trote e que ela tinha convencido ele de alguma maneira a ir morar com ela. Seja lá como fosse, jamais aceitaria tal perda.
Não desisti de procurá-lo dia e noite e caminhei sem destino; gritei seu nome em todos os lugares, onde provavelmente poderia estar. Durante noites caminhei no meio do nevoeiro, esperando encontra-lo. Chegava a ouvir passos, corria a seu encontro, mas quando me aproximava não era ele: só decepção. Noites e noites percorri os lugares onde dançamos: no Amarelinho; Livre Escolha; Bar da Jane; do Paixão; do Paraíba, Padaria da Vila Gomes, enfim Ribeirão Pires de ponta a ponta. Nunca mais o vi. E aquele par de alianças que é o símbolo do nosso amor, além de minhas lembranças, é tudo o que restou de nossa união e não tem mais valor para ninguém, só para mim. Um símbolo que ninguém pode apagar, pois mesmo que esteja no mar, na terra ou tenha virado pó, ela simboliza um grande amor. .
Nossos álbuns de foto, brincando em parques, montando nos balanços, rodas gigantes,carrinho de batida, rolando no capim do Parque Municipal Milton Marinho de Moraes e nadando nos rios de varias cidades de Minas Gerais, também são lembranças de momento felizes, mas que hoje também se misturam a uma grande saudade.Tudo isso foi escondido de mim pela família, na esperança de que ele voltasse à vida, para que eu conseguisse esquecê-lo, mas é inútil. Jamais poderia esquecer alguém que me fez ver a vida, me mostrou a felicidade e que o verdadeiro amor nunca morre: é eterno.

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