Na viagem de volta a São Paulo, fiz questão de vir no banco de trás; sentar ao lado do companheiro de 20 anos de casamento, já não fazia sentido. Pelo retrovisor do carro sempre ele me olhava. Com estes anos todos juntos era capaz de ler até meus pensamentos.
Após 12 horas de viagem de volta com a família pra São Paulo, eu como passageira no banco de trás, sequer levantei ou aceitei tomar água. O desgosto estava estampando no meu rosto, olhar fixo no motorista da frente, os dentes as vezes faziam barulho, de roçar um no outro, as vezes pegava na ponta dos lábios a ponto de sangrarem.
Tudo que passei neste tempo todo ao lado de um homem que um dia prometeu-me amor e respeito todos os dias de nossas, fui revirando em minha mente. Percebi o tamanho do estrago que fiz comigo mesma. Lá se fora a juventude, a beleza, a esperança e as ilusões. Depois de tanta luta e sofrimento acabou.
Porém, restaram-me quatro filhos lindos, trabalhadores, simplesmente maravilhosos. Foi o presente, como recompensa que Deus me deu. O que seria de minha se não fossem eles quando meu projeto de família feliz se rasgou.
Chegamos de viagem, descarregamos os carros, fui direto para o tanque. Lavei toda a roupa dele, e passei no capricho.
Coloquei em uma mala, chamei-o e disse:
-- Agora chega!
Depois do que me fez passar, não te quero mais aqui. De preferência nem neste Estado. Quero te ver longe do mapa do Brasil, se for possível.
Comportando-se como se nada tivesse acontecido, ele respondeu secamente:
-- Daqui não saio, a casa é minha e tudo aqui me pertence, que saia você!
-- Eu não vou sair. Vim para São Paulo em sua companhia, atrás de um lar prometido, com a cabeça cheia de sonhos! E você me ofereceu um pesadelo! Fui sua empregada domestica, saco de pancadas, onde descarregou seu tédio, sem férias, sem salário, carinho e amor. Eu não vivi, só vegetei!
A briga estava pronta, jamais o canalha iria perder a chance de tentar me espancar. Fui firme e o coloquei pra fora, com mala e tudo. Depois que estava do lado de fora, ainda me atacou pelas costas e me feriu gravemente que doeu mais do que qualquer ferimento. Feriu também o meu orgulho e fui desafiada a me sustentar sozinha.
Ele pegou um caminhão e levou tudo que coube, deixando a casa praticamente vazia. Fiquei na mais completa miséria, e com filho ainda pequeno para terminar de criar. Ele acrescentou que se eu o procurasse para pedir qualquer coisa, que me mataria.
De alma ferida, e cara quebrada, literalmente, disse pra mim mesma: - “Vou me sustentar sozinha! Tenho fé em Deus!”
No dia seguinte passei meu batom, prendi meus cabelos, coloquei um gelo nos hematomas e nos olhos para disfarçar o inchaço e fui à luta. Abri meu barzinho e o sorriso como sempre e fui atender meus fregueses. O único meio de vida que tinha a mão. Não demorou muitos dias, mamãe soube que meu marido tinha me abandonado e ficou furiosa e deu ordens para que eu o perdoasse e pedisse perdão para que ele voltasse. Só quando soube que ele fora morar no sítio com um rapaz, admitiu que o caso não tinha perdão e que nossa separação estava consumada.
Então mamãe ordenou que eu fechasse o bar, porque para ela, mulher sem marido que encosta o umbigo no balcão é vagabunda. Eu não sabia fazer mais nada, sem estudo, sem emprego, não sabia o que fazer. Quando comentei com filho que mamãe me deu ordem para fechar o bar ele não concordou e disse: que se eu fechasse o bar por causa dela ele iria embora de casa. Irritado, que disse que a avó era velha e preconceituosa, mas que eu ainda era jovem e não fazia sentido respeitar a mãe nesta idade e nestas condições. Agindo assim, segundo ele, eu estaria me comportando como se fosse mais velha do que ela.
Então, fiquei na linha de fogo entre meu filho e minha mãe; tanto mamãe brigou comigo que acabei por fechar o bar. Confiei no amor e carinho que tanto dediquei a meu filho e preferi respeitar minha mãe. Mas, para minha surpresa meu filho cumpriu o prometido e saiu de casa: lá se ia meu bebê embora, perambulando pelo mundo.
Inscrevi-me na frente de trabalho do governo e fui chamada para trabalhar, ganhando um salário mínimo e uma cesta básica, o mesmo desafio que foi imposto a tantos brasileiros, sobreviver com um salário, fui carpir ruas e escolas.
Ainda por cima ouvia as piadas dos vizinhos que não sabiam nada de minha vida, mas se sentiam no direito de me discriminar. Voltei a estudar à noite no MOVA (Movimento de Alfabetização de Adultos), estudando e trabalhando, completei o primário e depois o fundamental, por eliminação de matéria.
Logo em seguida, fiz um curso de auxiliar de enfermagem com bolsa oferecida pelo Ministério da Saúde. Foi então que troquei a enxada pela seringa. A coisa começou a andar e eu estava em dia com o carnê das casas Bahia, onde tinha comprado os móveis que havia perdido na separação e tudo ia bem.
Meu filho veio fazer uma visita e ficou, voltou para casa para completar minha felicidade e então me disse: - mamãe você é minha heroína eu é que estava errado, a senhora e a vovó não estavam 100% erradas; eu sofri muito por ai. Morando novamente com meu filho, a vida dava sinais de melhora, a felicidade rondava meu lar; na geladeira tinha mais do que água gelada , no armário mais do que feijão .Eu continuava mandando currículos para clinicas e hospitais, sempre em busca de um emprego melhor; Cheia de esperanças, tinha certeza de que qualquer hora a vida iria sorrir para mim. E esperava o tempo todo uma boa noticia porque eu sou uma profissional competente e em cada dose de remédio administrado, coloco outra dose de amor. Sou a enfermeira que conta piadas, histórias... Enquanto o paciente não mostrar o sorriso, não saio de seu leito.
Um dia o telefone tocou. Eu atendi e uma moça disse que era de uma clinica de idosos e que estava precisando de uma enfermeira. Tinha em mãos um currículo meu e gostaria de saber se eu ainda estava interessada no serviço. Confirmei que sim e então marcamos a entrevista para o dia seguinte às duas horas da tarde. Fiquei feliz, pois tinha boa chance de conseguir aquele emprego.
À noite quase nem dormi de tanta ansiedade. Logo pela manhã levantei-me cedo para cuidar dos afazeres da casa e adiantei tudo lavando roupa e passando, enquanto ficava na certeza de que no dia seguinte iria começar no emprego novo e ganhando bem mais que no antigo, no qual nem registrada era.
Almocei na companhia do meu filho e, como toda mãe, passei as recomendações do tipo: não ande com más companhias e quando sair não deixe a luz acesa, etc. Mas fui interrompida com graça e humor: mamãe olhe para mim, eu já cresci, sou um homem e já sei cuidar de mim sozinho. Como se filho crescesse para mãe, ele não sabe que filhos nunca são grandes o suficiente o caçula então, nunca vai deixar de ser um bebê.
Estava na sala dando os últimos retoques na maquiagem, prendendo os cabelos como manda a ética da enfermagem, quando o cachorro que atendia pelo nome de Dumbo começou a latir, avisando que ali chegava uma pessoa estranha e, pelos latidos insistentes, havia alguém se aproximando.
Foi quando pedi para meu filho que atendesse o portão e dissesse que mamãe não pode atender. Que anotasse o recado que mais tarde veria do que se tratava.
Ele foi até o portão para atender a visita, mas logo que chegou do lado de fora gritou desesperado:
- Mamãe, mamãe corre aqui e me ajuda!
- Filho o que esta acontecendo pelo amor de Deus?, respondi assustada.
- Papai chegou e está caindo pela escada abaixo!
Ao sair, me deparei com meu ex-marido, que se encontrava meio sentado e meio de joelho, com uma das mãos no ombro do filho, que estava assustado e sem reação. Quase não o reconheci, pois estava pálido, magro e a única palavra dita foi: - “me ajude!”.
Meu filho pediu que o ajudasse a levar o pai para dentro.
Claro! Respondi prontamente já pegando pela cintura o doente, que quase não se agüentava em pé e mal falava. Ali estava meu ex-marido muito mal de saúde, voz baixa e ofegante, pedindo socorro.
Eu o amparei até o sofá e servi um copo com água. Ele mal conseguia engolir e de repente parece que engasgou. Quando tossiu forte, percebi um sangramento no pano que trazia na mão.
Ali diante de mim, justo na hora marcada da entrevista de emprego, fiquei desesperada e sem saber o que fazer dava um passo à frente e outro para trás, ao mesmo tempo em que remoia meus pensamentos: – “Meu deus me ajude, me ilumine nessa hora!. E o juramento perante a bíblia que fiz prometendo cuidar de todos os seres humanos? E meu filho pedindo mamãe ajude o que devo fazer com papai?. Estou o perdida, não tenho saída”.
Finalmente respondi:
--Vou cuidar do seu pai! Fique tranqüilo, chame uma ambulância que tudo vai dar certo. Vinte minutos mais tarde estávamos no hospital mais próximo, os outros filhos vieram também, parecia que estavam se certificando que o pai estava tendo minha atenção. Antes que dissessem qualquer coisa eu os garanti que faria o possível para que o pai deles melhorasse e que jamais o abandonaria nessa hora.
Já internado, medicado e mais tranqüilo, já passado o susto aproximei-me dele para conversar um pouco e mostrar bandeira branca, afinal sou de paz. Ele me disse:
--Deixe-me ficar perto de meus filhos nesses últimos dias de vida.
Eu interrompi dizendo:
--Calma você vai ficar bom tenha fé em Deus.
Ele então admitiu:
-- Contraí o vírus HIV e estou morrendo.
Pela minha experiência em hospitais eu já estava desconfiada.
Daí por diante foi só correria de hospital em hospital sem sucesso. Era cada dia pior, a luta era em vão, pois os remédios não faziam efeito e a coisa estava ficando feia.
Passei trinta dias sobre o leito dele. Ficava sempre de pé aos pés de sua cama, olhando para ele o tempo todo e por mais que olhasse não o reconheci como esposo que foi durante vinte anos.
Não sobrou nada, nenhuma história engraçada que pudéssemos contar para quebrar aquele clima triste de hospital. A enfermeira palhaça perdeu o rebolado; Ali de pé estava uma profissional trabalhando e cuidando dos aparelhos, medicação e bem estar do paciente. Meus amigos de profissão todos trabalhando e eu ali cuidando de um único paciente: o meu ex-marido. O doce prazer da profissão se tornou amargo como fel. Ali de pé existia uma pessoa com dois corações.
Um coração de profissional e outro cheio de ira e magoa; Com a revolta à flor da pele, louca para dizer umas verdades. Em um dado momento, parece que ele deduziu meus pensamentos e evitou olhar-me nos olhos e virou o rosto. Neste momento fiz questão de dizer-lhe que eu era uma profissional competente e podia confiar em mim, que jamais lhe queria mal, então acariciei seus cabelos até que ele se mostrasse calmo e tranqüilo. Mesmo assim, discordei de Deus e achei injusto que ele descansasse sem pagar o que fez comigo. Ainda o colocou em minhas mãos para testar meu coração. Eu já estava cansada de lutar ao lado dele dia e noite até que chegou alguém e disse:
- Pode descansar que agora eu fico com ele! Exausta e abatida fui para minha casa, onde naquela mesma noite soube que ele veio a falecer.
Eu e meus filhos cuidamos de todos os preparativos para o velório. Curiosamente, tinha tanta gente que parecia até enterro de prefeito. As “fifis”(fofoqueiras) também estavam lá com suas línguas afiadas e perigosas, sempre cochichando pelos cantos e nem se deram conta de que eu também tinha amigos lá, que as ouviam e me contaram tudo.
- Olha a cara dela! depois que morre é que se dá valor! Abandonou o coitadinho sem motivo, agora se faz de viúva triste.
O “amigão” dele também estava lá. Cada olhada que me dava valia por uma flechada. Eu coloquei óculos bem escuros porque se pudessem ler os meus olhos fugiriam dali, pois expressavam o ódio que sentia de tais “amigos” e pensava comigo mesma: - aqui no velório é lugar de respeito, mas eu dava tudo para te encontrar em um ringue. E para eles eu dizia em pensamento:
- Vocês já compraram seu passaporte para o inferno?
Embaixo daqueles óculos nenhuma lagrima caiu, e continuava pensando: -Defunto de sorte! Se não fossem esses quatro presentes (os filhos) que me deu, você estava perdido. Nada daquelas cenas tristes me tocaram, a não ser o choro e desespero de meus filhos, por isso abracei-os e beijei-os, mas as palavras de consolo sumiram da minha boca.
Tive medo de me olhar no espelho e ver do outro lado uma estátua ou um monstro. Mulher de pedra é o que eu era naquele momento. Meu sentimento foi mais por causa do sofrimento de meus filhos.
Sofri porque eu não tinha sentimentos de espécie alguma por aquele homem!
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NOOOOSSSAAAAAAA... e o tempo voa mesmo !!!
E já estamos com um nome sorteio para o Mercado Persa !!!!
Graças a Deus... (*lol*)
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Há 7 anos

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