terça-feira, 24 de maio de 2011

7 Capitulo

O ENCONTRO COM O AMIGO

Depois que fiquei viúva, ficou tudo para eu tomar conta: o sitio e outras propriedades; não sabia nem por onde começar. Pois meu marido nunca deu direito de opinar em nada, agora era eu quem tinha que tomar conta do negócio.
Então fiz uma visita ao sítio, onde havia plantação, e estive conversando com os empregados e anotando tudo que via, fazendo as perguntas mais primárias que até a filha do caseiro de sete anos sabia e eu não.
Tratava-se de uma plantação de hortaliças, além de algumas cabeças de gado leiteiro e duas casas que estavam fechadas. Contratei advogados para cuidar do inventario e comecei a me integrar no assunto, com muitas dificuldades. Eram tantos papéis que eu estava toda atrapalhada e não sabia o certo o que eu estava fazendo, mas mantive a cabeça erguida com ar de “sabichona”.
Foi numa dessas andanças para cima e para baixo, que um dia passando pela avenida Miguel Prisco, no centro de Ribeirão Pires vinha eu andando tranqüilamente e lendo os documentos com atenção pela rua, quando avistei um homem caído no chão. Já havia até passado por ele, quando resolvi olhar para trás e percebi que o homem estava bem trajado e nem de longe parecia um mendigo.
- Será que passou mal e desmaiou por aqui? Perguntei em pensamento.
Meu lado de enfermeira falou mais alto e resolvi voltar e verificar o que estava acontecendo. Aproximando-me daquele homem deitado na calçada, com o braço cobrindo o rosto, então o chamei: - Moço, moço! Como ele não respondia, tirei seu braço do rosto e levei um grande susto.
Para minha surpresa, era meu antigo freguês, aquele homem educado e fino, que estava ali caído na calçada. Chamei pelo seu nome, dei uma sacudida e percebi que estava embriagado com o rosto ferido, como se tivesse caído de cara no chão.
- Pereira,seu louco, acorde! O que você está fazendo de sua vida?
Ele abriu os olhos lentamente e perguntou:
- Quem e você?
- Uma amiga.
- Não tenho amigos, me deixe em paz!
- Tem sim,eu.
- Não me lembro de você.
- Não importa! Levanta daí vamos conversar!,
Puxando-o para que ficasse de pé. Ele tinha as pernas tremulas e voz enrolada, mal entendia o que ele falava. Consegui por ele de pé, o fiz se apoiar em mim e disse:
Vem comigo, vamos embora daqui!
Ele recusou:
Não quero ir para lugar nenhum.
Eu disse:
Toma vergonha e vamos dar um jeito nessa cara que esta feia.
Caminhamos até o bar mais próximo, peguei um copo de leite e o fiz tomar e logo parecia estar melhorando, então falei que ia leva-lo para casa, mas ele recusou meu chamado e acrescentou:
- Todos me abandonaram e deixaram minha casa vazia e se foram: filhos; esposa e, por isso, virei um cachorro de rua.
Andando e conversando, eu o trazia na direção em que dizia morar. Pelo caminho, ele vinha dizendo que sabia lavar, passar, limpar a casa, mas cozinhar não. - “Nunca aprendi nem fritar um ovo”.
- Às vezes – acrescentou - como na rua quando me dá fome e com isso emagreci vinte quilos. Até que fim ele disse: Moro aqui graças a Deus nós chegamos. Pode voltar daqui, e muito obrigado!
Eu disse:
- Não vou voltar daqui. Já vim até aqui, vou lhe levar até lá dentro e cuidar de você!
Com dificuldade, ele tentava tirar a chave do bolso, depois tentava achar o buraco da fechadura, até que perdi a paciência, peguei as chaves das mãos dele e abri o portão.Caminhamos até a porta de entrada, quando ele insistiu:
Obrigado por me trazer, pode voltar!
- De jeito nenhum – retruquei. Pode me mostrar qual é a chave da porta.
- É esta daqui .
Lá dentro não tinha quase nada, apenas uma cama no quarto e um tapete na sala, na cozinha uma mesa com quatro cadeiras e um fogão ainda embalado e novo.
- Entre vou dar um jeito em você rapidinho. Quer ver?
Ele se assustou e perguntou:
O que vai fazer?
--Vou te dar um banho e cuidar dessas feridas ai. Fui logo tirando a roupa dele e dizendo sou uma profissional da área de saúde. Meu nome é Maria e, por favor, colabore.
Ele começou a chorar e deixou que eu desse banho nele.
Enquanto isso, ele me dizia:
- Ali na gaiola esta o único amigo que me restou nesta vida.
Olhei para a gaiola e perguntei:
- É assim que cuida de um amigo sem água e comida? Pois lhe digo: animais precisam de carinho e cuidados. Se não deixe-o ir para que a natureza cuide dele.
Então dei um banho limpei as feridas e fiz curativos. Na mesa, havia uns pães e chá, que fiz e servi a ele. Coloquei-o em sua cama, dei um beijo em sua testa e fui cuidar de quem disse que era seu amigo: pássaro.
Dei uma ajeitada na sua louça e quando voltei ao quarto ele dormia profundamente. Então escrevi um bilhete, assim:
“Amigo, não tive coragem de lhe acordar. Você dorme feito um anjo. Mas, deixo meu telefone e por favor ligue assim que acordar.
Beijos Maria”
Joguei a chave por debaixo da porta e fui embora para minha casa. Naquele dia, ele não ligou; esperei alguns dias e nada.
Então, pensei que se não ligou é porque estava bem. Continuei meus afazeres e sempre estudando. Nunca mais parei de estudar; estou sempre lendo; aprendendo coisas novas; fazendo muitas amizades; viajando bastante, sempre de São Paulo para Minas Gerais. Minha vida ficou bem agitada e quase não tinha tempo de me alimentar direito. Ali mesmo no centro de Ribeirão os cardápios estavam escritos: ”Quarta-feira feijoada R$5,00”,já passava mais de uma hora da tarde e o estômago falava mais alto, quando resolvi entrar para almoçar e experimentar o prato do dia.
Quando ia me sentando devagar, olhando para os lados e observando a clientela rapidamente, visualizei um homem de cabeça baixa e que apenas observava o prato cheio à que parecia permanecer intocado à sua frente. Olhei e percebi que lá estava ele, o Pereira todo triste, o meu amigo que não via há dias.
Eu fiz um psiu para chamar sua atenção e, quando me viu, fez um gesto com o polegar como se perguntasse se estava tudo bem.Eu respondi acenando com a mão e fazendo gesto com a cabeça que sim. Ele deu um sorriso e acenou para que eu fosse ate sua mesa. Caminhei até bem próximo, pedi licença e me sentei.- Poxa quanto tempo! – reclamei - Fiquei esperando o seu telefonema e você nunca me ligou.
Um pouco sem graça, ele alegou ter perdido o telefone e eu disse que não tinha problema e que só queria saber como estava. Fiquei preocupada com você.Pensei que tinha se mudado.
Ele respondeu:
- Na verdade, fiquei com vergonha de lhe preocupar. Você sabe o estado que me encontrou e, alem disso, não tive coragem de lhe preocupar com meus problemas.
- Ah, deixa disso, vergonha porque? – comentei. Isso é coisa a que todos nos estamos sujeitos na vida.
Sempre em tom de brincadeira, com sorriso nos lábios, o papo estava ficando descontraído. Estávamos comendo e sorrindo dos fatos e sem cerimônias, almoçamos.
Ai veio aquela pergunta boba que nem sei porque perguntei.
-- O que você anda fazendo pra se divertir?
- Eu? Eu ando por ai procurando diversão na noite. Gosto muito de dançar e sempre encontro uma doida pra dançar comigo.
--Eu também adoro dançar, ou pelo menos adorava, antigamente quando criança lá no interior ao som do violão de papai, acrescentei.
-- Aceita qualquer dia desses sair comigo para dançar? Com todo respeito e claro!
A resposta veio de supetão, sem pensar - Claro que sim, adoraria!
Pensei que aquela conversa não ia a diante e que era apenas um papo furado, para passar o tempo;
Ele ficou de ligar antes para combinar.
-- Não esquecerei este convite! Disse eu, sorrindo e lembrando que ele disse que perdeu meu telefone.
Fui me levantando e dizendo: - Sinto muito tenho que ir.
- A conta e minha, disse ele em tom cavalheiro.
- De jeito nenhum, eu pago! Retruquei.
- Ficarei ofendido se não deixar eu pagar esse almoço, a sua companhia foi tão agradável que até acabei comendo. Se você não tivesse aparecido, com certeza eu não teria almoçado tão bem como almocei, insistiu.
- Fico feliz com isso, mas não tem cabimento você pagar a conta. Então eu proponho uma solução: rachamos a conta.
Ele respondeu que de jeito nenhum: - Essa conta é minha! Se não, também não tem convite para dançar.
Achei tão engraçado aquele apelo que dei uma risada gostosa e espontânea, pois não tinha levado a sério aquele convite.
O tempo estava passando e para por um ponto final na conversa eu cedi:
- Esta bem! Hoje você paga, mas a próxima e minha!
- Fechado prometo que deixo você pagar a próxima.
Ele abriu a carteira, ficou olhando por uns segundos e tirou o meu bilhete o que eu havia escrito a muito tempo atrás. Olhei para ele disse:
- Você mentiu quando disse que havia perdido meu telefone?
Ele respondeu:
- Só dessa vez, mas o resto e verdade.
- Eu acreditei e não ia lhe dar de novo.
Ele pagou a conta e fomos saindo juntos do restaurante. Demonstrou estar bem melhor fisicamente e psicologicamente. Despedimo-nos com beijinhos no rosto e cada um foi para seu lado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário