quarta-feira, 28 de abril de 2010

...A Balconista...

Durante cerca de dez anos, eu dividia o meu tempo entre as funções doméstica e a de proprietária de um pequeno comércio em Ribeirão Pires, que era apenas uma porta aberta para vender umas poucas mercadorias. A mais vendida era a pinga, procurada pelos trabalhadores que por ali passavam no fim da tarde, ou na hora do almoço; algumas balas, doces e salgadinhos para as crianças que seguiam a caminho da escola.

O local era tão pequeno e tranquilo que eu trançava meus barbantes com uma agulha de croché, enquanto tomava conta do pequeno comércio. Meu marido trabalhava em uma empresa para garantir o sustento da casa e os estudos de nossos quatro filhos.

Estes, que cresciam muito rápido, já estavam procurando seguir seus caminhos. Os dois mais velhos cursavam o colegial e os mais novos, o primário.

Às tardes, meu marido chegava da empresa, descansava um pouco e depois tomava conta do bar, enquanto eu preparava o jantar para que meus filhos pudessem ir à escola bem alimentados.

Eu era uma jovem-senhora, cabocla, de cabelos longos e negros, muito sorridente e bem-humorada; estava sempre cantando, nunca esquecia os “obrigados” e “volte sempre” a cada freguês, e com este mesmo carinho me dedicava a meus filhos e meu marido.

Eu era um pouco rude na leitura, não havia completado nem o primário, pois quando criança não tive chance de estudar.Às vezes contava com a ajuda dos filhos ou dos próprios fregueses para voltar o troco. E assim ia levando a vida com honestidade.

Parecendo feliz da vida... (ou talvez disfarçasse muito bem minhas tristezas) e vivia sempre cantando. Nada era capaz de tirar aquele sorriso maroto do meu rosto.

Era acostumada a atender os vizinhos e amigos da região e já sendo conhecida por todos ali. Na hora das crianças passarem rumo à escola, sempre ficava do lado de fora para ganhar um beijo delas.

Eu oferecia uma balinha para aquelas que não podiam comprar e todas me chamavam de “tia”. Algumas faziam questão de mostrar os cadernos para que eu visse como eram caprichosas e como sabiam direitinho a lição que era dada pela professora.

Tinha sempre um conselho na ponta da língua para os que tiravam notas vermelhas e esses, quando melhoravam seu desempenho, vinham correndo em minha direção para ganhar um elogio e uma balinha.

Em uma tarde de verão, o sol brilhava - dia raro nesta região, que sempre nevoava nos fins de tarde. Antes do por do sol, apareceu um freguês diferente, no seu próprio carro, bem trajado, desceu com passos lentos, olhando de um lado para outro, como se estivesse sendo seguido ou procurasse alguém.

Entrou, cumprimentou-me com muita educação, pediu-me que lhe servisse uma dose de vodka com gelo. Fiquei surpresa, pois até aquele momento só havia servido umas doses de pinga pura ou no máximo com limão. Por sorte, havia uma garrafa escondida atrás das outras.

Como era a bebida preferida de meu marido, tratei logo de pegar o gelo e servir o freguês. Ele agradeceu e ficou de pé meio debruçado no balcão, olhando direto para aquele copo entre os dedos, acariciando-o com o polegar, como se estivesse pensando em alguma coisa muito importante.

Talvez um grande problema, daqueles que fazem com que apareça aquela “ruguinha” a mais na testa.

De vez em quando ele colocava o fundo do copo na palma da mão. Acho que sentia a temperatura da bebida conforme o gelo ia derretendo... E ele parado ali na minha frente daquele jeito. Não tive reação para interromper o silêncio; não havia mais ninguém, no estabelecimento, apenas eu e ele.

Eu estava de pé do outro lado do balcão com as mãos para trás, esperando a próxima ordem do freguês.

Passaram-se uns minutos e ele permanecia na mesma posição. Depois acabou tomando a bebida, agradeceu, despediu-se, entrou em seu carro e se foi.

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