terça-feira, 24 de maio de 2011

Os trotes

Sempre que chegava em casa feliz, exalando amor por todos os poros, seja lá que hora fosse, invariavelmente o telefone tocava e uma voz muito mal disfarçada - como se a pessoa estivesse engasgada ou de boca cheia – vinha sempre com a mesma conversa. Dava ordens expressas para que eu deixasse meu amor, dizendo que ele a pertencia, que ela já havia tirado ele da família e que comigo não iria ficar.
Imagine! Se eu esqueci até as ordens de mamãe, agora iria dar ouvidos a trotes de alguém que nem sequer se identificava? Os trotes continuaram e passaram a ser quatro ou cinco vezes ao dia, a ponto de ter que tirar o telefone da tomada para que eu pudesse ter um pouco de sossego. A pessoa começou a usar palavras de baixo calão como vagabunda, prostituta, ladra etc...
Continuei não dando importância, apenas desligava o aparelho para dormir ou descansar durante o dia. Sempre feliz, dançando e cantando, queria ver no mundo alguém mais feliz do que eu...
Os trotes começaram a incluir ameaças de morte, com um tiro na cara. Não me intimidava e até ironizava: - o que é um tirinho perto de tanta felicidade? Com certeza a bala voltaria de onde veio ou se eu morrer serei, sem duvida nenhuma, a defunta mais feliz do cemitério onde fosse sepultada. Eu ter medo de morrer, difícil! É mais fácil eu ter medo de viver.
Os trotes eram contínuos, mas nunca tive tempo de me preocupar com eles. Afinal, estamos cada vez mais unidos e, pela primeira vez, depois de quatro anos livre de um casamento por obrigação e sem amor, vivia uma paixão arrasadora que nunca tinha experimentado.
Quando jurávamos amor eterno um para o outro, dizíamos vamos nos amar até a cabeça ficar branquinha, sem nenhum fio de cabelo preto À noite rezávamos juntinhos com a mão oposta pedindo para nossa senhora Aparecida que permitisse que ficássemos juntos por muitos e muitos anos.
Com o passar do tempo, a convivência com minha família era muito boa, pois meus filhos o consideravam como a um pai e até diziam que seus conselhos eram ótimos e que, com suas palavras calmas e doces, falava pouco e bem acertado. Minha admiração, é claro, também era muito grande a ponto de então, não fazer mais nada sem sua opinião. Éramos o casal perfeito e muito romântico. Bastava estar juntos para trocar beijos e caricias de amor, às vezes durante todo o dia. Escrevíamos bilhetes amorosos e perfumados e deixávamos por onde o outro passava.
Sabia que ele iria deitar depois do almoço ou jantar, então deixava um bilhetinho dentro da fronha do travesseiro e ficava aguardando que o encontrasse, na certeza que após ler meu recadinho, logo iria me chamar:
- Baixinha! Baixinha! Vem ver o que eu achei aqui!
Claro que sabia que era meu bilhete, mas sempre perguntava: o que é?
Então, me respondia com uma voz dengosa:
- É uma loucura muito louca, mas muito deliciosa.
- Pois eu quero tudo que está ai! Agora! – “Ordenava” eu, que a cada dia usava a imaginação para escrever uma coisa diferente, geralmente fantasias ou loucas posições para fazer amor. Os lugares onde deixava os bilhetes também variavam muito, às vezes os colocava até dentro do copo em que ele gostava de tomar café. Divertia-me vê-lo ansioso pelos tais bilhetinhos, que buscava pela casa e muitas vezes só encontrava depois de longa demora, apesar das pistas que eu dava. Eu ia dizendo se estava quente ou frio, morno ou gelado, até encontrar e descobrir o que eu queria dele ou ele de mim naquela noite, que eu sabia, sempre seria melhor que as anteriores.
Os trotes, no entanto, nunca pararam de acontecer, até um dia em que eu estava agitada, o telefone tocou. Respondi à altura de minha rival anônima e desliguei. Quando coloquei o fone no gancho, tocou de novo, no mesmo instante. Então, peguei o telefone com raiva e disse barbaridades. Só depois descobri que era outra pessoa inocente na linha. Mesmo assim, fiquei com a pulga atrás da orelha. Será que era inocente mesmo? O fato é que até hoje não descobri e nunca pedi desculpas, pois não tenho tanta certeza da inocência dessa pessoa. Um dia resolvi conversar sério com meu amor a respeito dos trotes.
Ele respondeu que foram os mesmos que destruíram seu casamento e que, pelo amor de Deus, eu não desse ouvidos a tais fatos. Só então me contou que no passado bem distante, teve um caso com uma prostituta e que a havia engravidado. Acrescentou que, além de lhe tirar até as cuecas, até hoje ela perseguia-o e achava que ele não tinha o direito de ser feliz com outra mulher. Insistiu que também não me preocupasse, pois não passava de uma louca. - Este é o fim de prostitutas quando vão ficando velhas e querem pegar um homem para cristo.
O telefone tocava e a voz passou a implorar para que eu abandonasse meu amor, mas continuei não dando importância e preferi acreditar nele. Se ele disse está dito! Jamais duvidaria do homem que agora era meu marido.
Completamente cega de amor, não via um palmo diante do meu nariz. No mundo não existia mais nada e ninguém, apenas o amor nos bastava. E foi tendo a lua como testemunha, as estrelas como benção de Deus, que trocamos alianças e juramos amor eterno. Cheguei em casa com uma linda aliança no dedo da mão esquerda e que tinha gravada o seu nome com a data 12/01/2003. Segui o mesmo ritual, colocando em seu dedo outra aliança com o meu nome gravado. Anunciei a união para a família e viajamos sem destino certo.
Uma volta ao mundo em lua de mel. Ele conheceu localidades que queria conhecer e eu, também pude visitar cidades históricas, como Ouro Preto, que tinha vontade de conhecer. Em cada lugar por onde passamos juntos, tenho certeza de que ficou um rastro de amor. Com nossa avassaladora paixão, não passávamos despercebidos e parecíamos causar inveja em muita gente mal-amada e solitária, coisa que existe muito nesse mundo afora..

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